domingo, 1 de maio de 2011

A primeira Entrevista

A primeira entrevista que realizei para o livro foi uma indicação do próprio Vandré. Eu já havia feito os primeiros contatos com ele quando em uma tarde ele me telefonou e disse: "Jeane, tem uma pessoa que pode ajudar muito no seu trabalho, ele conhece toda minha vida, vai saber falar de mim melhor do que qualquer outra pessoa. É o Alberto Helena Junior, eu não tenho o telefone dele e também não sei por onde ele anda, mas,você é uma menina esperta, vai conseguir encontrá-lo".   Fiquei surpresa com o seu gesto , quem diria, o próprio Vandré indicando fontes que me ajudariam a reconstruir a sua história. Quando desliguei o telefone a primeira coisa que fiz foi jogar o nome do Alberto Helena no google, e foi mais fácil do que imaginei. Lá estava o email dele para quem quisesse ver. Entrei em contato e o retorno foi imediato. Agendamos a entrevista e, diga-se de passagem, foi uma das mais longas e produtivas que eu realizei. Ficamos horas conversando sobre o Vandré, os festivais, a ditadura e tudo que compunha o cenário da época. É muito enriquecedor ouvir pessoas que foram testemunhas oculares da história. Uma coisa é você conhecer a história contada nos livros, e outra é vivenciá-la, ser parte integrante dessa história,  um personagem que presenciou  fatos reais, concretos, sem “cortes”, e sentiu na pele todos os acontecimentos da época.
Costumo dizer que nasci na época errada, pois, adoraria ter vivido esse período da história do nosso País, período que considero o mais rico em todos os aspectos, pois foi na década de 60 que ocorreram as maiores transformações políticas, culturais e comportamentais, época de grandes  acontecimentos que marcaram o século XX.  
       O ano de 1968 é o que melhor representa essa década. Vejamos por que:

Fatos marcantes de 1968 no Brasil e no mundo*

Antes de Maio
 
16 de janeiro - Estréia no Rio a peça "Roda Viva", de Chico Buarque de Holanda, dirigida por José Celso Martinez Corrêa

17 de janeiro - O cantor Roberto Carlos apresenta a última edição do programa "Jovem Guarda", no Teatro Record, em São Paulo

30 de janeiro - O Exército vietcong inicia a chamada Ofensiva de Tet, invadindo 34 capitais de Província vietnamitas e a cidade de Hue

15 de março - São desapropriados, em Cuba, os últimos estabelecimentos privados --bares, livrarias e oficinas

16 de março - Militares norte-americanos massacram cerca de 150 civis vietnamitas na aldeia de My Lai, no Vietnã

28 de março - O governo da África do Sul apresenta três leis que culminam no apartheid

4 de abril - É assassinado a tiros, aos 39 anos, o pastor negro Martin Luther King. No dia seguinte, ocorrem conflitos raciais em 125 cidades, e a morte de 46 pessoas em Washington.

5 de abril - É lançado, na Tchecoslováquia, o programa de reformas políticas que ficou conhecido como Primavera de Praga

10 de abril - Caetano Veloso participa da "Noite da Banana" no "Programa do Chacrinha" (Rede Globo)

17 de abril - 68 municípios são considerados área de segurança nacional. Com isso, ficaram suspensas, nessas cidades, as eleições municipais de novembro

28 de abril - Cerca de 60 mil manifestantes protestam, no Central Park, em Nova York, exigindo o fim da Guerra do Vietnã (1959-1975)

30 de abril - Estréia na Broadway o musical "Hair"

Depois de Maio

5 de junho - É assassinado, aos 42 anos, o senador e candidato à Presidência dos EUA Robert Kennedy

16 de junho - A polícia francesa retoma à Sorbonne, até então ocupada pelos estudantes

26 de junho - É realizada, no Rio de Janeiro, a "Passeata dos Cem Mil", reunindo principalmente estudantes, intelectuais, artistas, padres e mães, autorizada pelo governo federal.

18 de julho - Integrantes da peça "Roda Viva" são agredidos no teatro Ruth Escobar, em São Paulo. A ação foi atribuída a integrantes do CCC (Comando de Caça aos Comunistas)

12 de agosto - É lançado, com um show em São Paulo, o disco-manifesto "Tropicália ou Panis et Circensis", de Caetano Veloso e Gilberto Gil, com convidados

21 de agosto - A Tchecoslováquia é invadida por tropas do Pacto de Varsóvia, em represália à "Primavera de Praga"

24 de agosto - A França explode, no oceano Pacífico, a sua primeira bomba de hidrogênio

3 de setembro - O deputado federal Márcio Moreira Alves, do MDB (atual PMDB), discursa contra as Forças Armadas na Câmara dos Deputados, em Brasília

2 de outubro - Confronto entre estudantes da Universidade Mackenzie e da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da USP, em São Paulo, mata o estudante José Guimarães

10 de outubro - A Assembléia Nacional da França realiza reformas no sistema educacional do país

12 de outubro - Cerca de 1.200 estudantes são presos em Ibiúna (São Paulo), quando realizavam clandestinamente o 30º Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes)

5 de novembro - O republicano Richard Nixon (1969-1974) é eleito presidente dos EUA

21 de novembro - O presidente Costa e Silva aprova a lei de censura de obras de teatro e cinema. É criado também o Conselho Superior de Censura

22 de novembro - Chega às lojas, nos EUA, o "Álbum Branco" dos Beatles.

13 de dezembro - Entra em vigor o AI-5 (Ato Institucional nº 5), que suprime as liberdades democráticas no Brasil. Com o AI-5, o Congresso Nacional é colocado em recesso e vários parlamentares têm seus mandatos cassados.

     Tenho um verdadeiro fascínio por esse período da historia do Brasil, quando leio a respeito é como se me transportasse para a época, por isso, não me canso de ler e escrever sobre o assunto, é a forma que encontrei de “vivenciar” esses acontecimentos e sobretudo, de compreender o Brasil de hoje.

     Mas, voltemos a entrevista. No próximo post disponibilizarei parte da entrevista que realizei com o Jornalista Alberto Helena Junior. Digo parte porque ela é muito extensa, então para a leitura não se tornar cansativa, a dividirei em 3 posts.

Espero vocês.

*Fonte: http://www1.folha.uol.com.br

sábado, 16 de abril de 2011

Entrevista com Sergio Ricardo (Cantor, Compositor e Cineasta)





Jeane Vidal – Como era a sua relação com Geraldo Vandré?


Sérgio Ricardo - Eu já conhecia o Geraldo antes (1967) muito antes de Disparada. Ele trabalhava comigo, a gente fazia o mesmo programa de rádio do Valdemar Henrique, um compositor famoso do passado... O Valdemar Henrique tinha um programa de rádio e ele fazia questão de apresentar os novos, na época. E os novos eram Luizinho Eça, Lincoln, que acabou virando pianista de grupo e tal , eu o Vandré e mais algumas pessoas. O ano disso devia ser 50 e tantos, 58, 59.... antes da Bossa Nova, antes de tudo isso...Foi bem no comecinho, a gente era garoto... eu nasci em 32... em 58 eu tinha 16, 17 anos, não então não é 58, foi 59, 60...


JV – Oficialmente ele começou cantar mesmo em 1960, quando gravou o 1° LP...


SR - Então, antes disso um pouco, devia ser o ano anterior ele tinha feito esse trabalho... Bom e a partir daí a gente ficou assim... mas não era bem amigo, a gente nunca foi íntimo, entendeu? Mas a gente se conhecia, a gente se respeitava, fazia cada qual o seu trabalho. Eu era pianista e cantava, já tava cantando, aí comecei a gravar, eu comecei a gravar primeiro que ele, mas, não foi ainda com a bossa nova. Ele gravou que disco primeiro?


JV – O título era Geraldo Vandré e ele gravou aquela música “Fica mal com Deus.” Foi a música que foi lançada nesse disco...


SR – Fica mal com Deus quem não sabe amar... eu gravei essa música no meu...


JV – a gravadora era a Áudio-Fidelity..


SR – Que fez a gravação dele?


JV – Isso, que fez a gravação dele...


SR – Exatamente, é provável... e eu sei que na época a gente começou a se separar, porque esse programa guilhotinava um pouco esse grupo, mas depois cada um foi pro seu lado. Esse Luizinho Eça virou um sucesso, ficou como pianista de boate e tal, acompanhava os grandes cantores e tal... Eu partir para fazer um outro trabalho como compositor. E o Vandré cantava aqui e ali e tal... E eu só vim saber dele depois, muito mais tarde, com a Disparada.


JV – Mas vocês fizeram alguns projetos no cinema juntos, não foi?


SR - que eu me lembre... é bom você me lembrar isso, porque eu não me lembro....


JV – Na época foi lançado o filme “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, a peça “Calabouço”.... E ele fez a trilha sonora de alguns filmes do Roberto Santos.


SR – É, ele fazia de uns filmes e eu fazia de outros. Eu comecei fazendo do “Deus e o Diabo na Terra do Sol” logo em seguida ele fez pra o Matraga.


JV – Não eram juntos então? Eram projetos separados?


SR – cada qual tinha um trabalho separado do outro, mas tínhamos uma identificação pela coisa do CPC, eu não sei nem se ele fez parte do CPC em algum lugar...


JV – Teve uma época sim, que ele fez parte, inclusive é citado o nome de vocês dois no CPC...


SR – No Rio?


JV – Não, aqui em São Paulo.


SR – então já foi depois do CPC do Rio...


JV – Só que ele não permaneceu muito tempo porque ficou irritado, achava muito panfletário e acabou saindo.


SR – É verdade. Eu também. Ele teve o mesmo problema que eu. E aí cada qual saia fazendo suas coisas com muita semelhança, né? Com muita, muita... era uma coisa meio paralela...


JV – Vocês tinham uma afinidade?


SR – é, tinha uma afinidade por causa da posição política de cada um, e acabamos juntos em várias coisas. Em Sofia, na Bulgária. Eu fui convidado oficialmente pelo comitê daqui que tava decidindo quem ia e quem não ia. E ele, ele conseguiu uma permissão pra ir também ao festival de juventude. Foi por conta própria, era isso que eu queria dizer. Parece que foi por conta própria não foi um convite especial. E lá nós nos encontramos ali, então a gente já recomeçou uma relação, inclusive eu queria usar o grupo que ele tinha levado, que era o Trio Marayá e ele não me permitiu usar o Trio porque eles já estavam um pouco meio confusos.


JV – Eles brigaram pouco tempo depois.


SR – É porque o Trio Marayá queria me acompanhar na música que eu fiz pro Guevara...


JV – Você e o Vandré fizeram suas músicas com o mesmo tema, não é? As duas tinham o mesmo título “Che Guevara” não era isso?


SR – Pois é, eu não me lembro bem da música dele, sinceramente...


JV – A música dele chamava-se “Che”. Eu li uma entrevista dele da época - quando ele voltou desse festival - nela ele comenta que vocês eram os únicos brasileiros que estavam lá e que suas músicas tinham o mesmo tema.


SR – Eu sei que não houve premiação propriamente. Andaram dizendo aí que eu tinha ganhado prêmio de letra e ele tinha ganhado prêmio de... Parece que ele ganhou sim prêmio de intérprete, o melhor intérprete.


JV - Ele veio sim com um troféu, pelo menos é o que diz os jornais da época.


SR – Me atribuíram um prêmio lá de.. Mas, não tinha prêmio, eu fui considerado a melhor letra, mas, não tinha prêmio de melhor letra. Mas enfim... E ali a gente fez uma relação também que não foi muito positiva porque a gente acabou se desentendendo um pouco, porque ele já estava um pouco irracional com as coisas, um pouco nervoso e... Ficou um pouco alijado, digamos, da delegação. Mas fez uma apresentação bela, fez uma coisa bonita, ele e o Trio Marayá fizeram uma coisa muito bonita. Na volta a gente se reencontrou aqui, eu não sei se foi antes disso ou depois disso, já teria passado a Bossa Nova, a Bossa Nova já tinha até acabado com o seu auge e eu já estava na música de protesto com ele. Os dois na verdade, os mais fortes nessa linha de trabalho. Ele de um lado e eu de outro, e uma vez fizemos um show juntos, isso eu não sei se você sabe. No Cave, na boate Cave.


JV – Essa boate era aonde, aqui em São Paulo?


SR – Aqui em São Paulo. Uma boate até que ocorreu uma coisa muito curiosa que eu tinha vindo recentemente da Europa, isso foi depois de 64, foi perto do festival, foi depois do festival da “Banda” e a Disparada, isso. Eu tinha voltado da Europa e íamos fazer, o Chico de Assis parece aqui, que produziu um show pra gente fazer no Cave, tinha até Hermeto Paschoal no meio da história e tudo. Nessa ocasião durante os ensaios eu pedi a ele o carro emprestado pra ir buscar a minha mulher no aeroporto que tinha acabado de chegar do Rio. Ele me emprestou o carro e na volta o guarda me parou pra ver esse negócio de documento, essas coisas e acabou rebocando o carro. Aí quando eu disse a ele: olha rapaz aconteceu uma coisa, e falei pra ele e ele disse: mas que malandro é você Sérgio, porque não deu uma grana pro guarda? Aí eu fiquei... eu não sabia onde enfiar a cara. Porque eu na verdade estava na Itália e lá se você tentar subornar um guarda você é preso. Eu nem pensei nisso, tirei isso da minha cabeça. Quando eu voltei pintou esse problema e eu em vez de oferecer um dinheiro pro guarda, fiquei discutindo com o guarda, tentando convencer o cara e o cara esperando que eu oferecesse dinheiro né, Como eu não ofereci, ele disse: é meu filho o carro vai ser que rebocado. Aí poxa vida, se não fosse o pai do Vandré que tinha lá não sei que tipo de relação tinha com o poder, aí então conseguiu tirar o carro dele. Mas essa foi a coisa curiosa. Nós fizemos um show juntos, essa foi talvez a única vez que a gente se apresentou fazendo uma coisa juntos. O da Bulgária era um festival cada qual fazia sua música. Nesse mesmo ano acabamos fazendo o festival lá da Record, o festival do “Beto bom de Bola” que eles chamam. Aí ele fez uma música sobre chofer de caminhão...


JV – “Ventania”...


SR – Uma música bonita. Mas acho que não chegou a classificação final...


JV – Não.


SR – Como eu também. Ficamos de fora desse festival.

Eu acho que o Vandré tem uma importância pra mim muito grande. Ele era uma referência no sentido de saber que eu não estava sozinho fazendo o tipo de trabalho que eu fazia na época... nos anos 60. De um lado eu fazendo meu trabalho e ele fazendo do outro lado, dali a pouco aparece o Gonzaguinha, Trio Marayá, Trio não sei o quê, o Quarteto Novo e tal, a Marília Medalha, a própria Nara começou a cantar música de protesto enfim que é aquele pessoal que fazia... E ele e eu éramos as pessoas que tínhamos iniciado praticamente esse movimento dentro da música popular e, volta e meia, nos encontrávamos em portas de fábricas, em shows de estudantes, é.. Isso nós fizemos muito, coincidia nossa presença em vários desses lugares, embora não tivéssemos uma participação é vamos dizer assim de patota, nós nunca fizemos uma patota de ser ele e eu fazendo a mesma coisa. Não, cada um fazia o que vinha a cabeça, mas, ambos com uma identificação do trabalho do outro. E éramos chamados pelos estudantes, pelos trabalhadores, pelos camponeses e tal, nos trabalhos que eles faziam. A própria classe média tinha muitas instituições, sindicatos, eu me lembro de ter ido até Brasília pra um sindicato dos alfaiates, uma coisa estranhíssima... Chamavam-me pra ir nessas coisas e geralmente eram shows assim, quase que gratuitos. Alguns mesmo a gente não recebia nada, era pura contribuição mesmo, ideológica né. E fora disso eu gravei uma música dele que é “Fica mal com Deus” e... Ele cantava uma musica minha que eu não me lembro mais qual é, acho que é “o nosso olhar” uma coisa assim. A gente se respeitava muito e nosso trabalho se coincidiam muito, a gente estava nos mesmos festivais, nas mesmas confusões aí com o Dops com essas coisas. Eu não sei nem se ele teria sido chamado pra dar alguma declaração no Dops.


JV – O que eu li é que foi publicado em jornal, que o Coronel Òtavio Costa pedia a prisão dele.


SR – mas isso depois...


JV – depois de “Caminhando”.


SR – depois de Caminhando a barra pesou pra ele. Eu acho que se ele desse muita sopa pelo Brasil ele acabaria ou preso ou exterminado.


JV – Você chegou a ser chamado pelo Dops?


SR - Várias vezes.


JV – Mas você nunca saiu do País?


SR – não, eu quando saí, saí por conta própria. Eu me auto exilava às vezes. Logo depois do golpe eu fui pra Europa e só voltei pra esse festival de 67. Pensando que já estivesse acabado. Imagina você, que ingenuidade pensar que dois anos ou três anos...


JV – Estava só começando...


SR – No ano seguinte a minha volta pintou o AI-5 e aí foi pior. Segundo o Thiago de Melo eu fui mais sacrificado de todos, porque o pessoal saiu... Porque você se exilar é ótimo, porque, você entra pra um país e tem todo um campo pra trabalho. No meu caso não, desde a ditadura que eu venho comendo o pão que o diabo amassou né. Porque trabalhar no seu próprio país estando contra o regime é uma coisa complicada. Então minha situação foi que eu conseguia sobreviver com os shows de estudantes de norte a sul do país pelas universidades que me chamavam. O Vandré não, porque ele saiu andou fazendo as suas... Na Europa...


JV – Ele ficou 4 anos e meio exilado. Ele foi para o Chile, depois foi para a Europa...


SR – Mas fez coisas não é? Ganhou Festivais lá fora, parece, ou ganhou ou participou de festivais...


JV – Eu não me lembro, vou verificar... (Em 1972, ganhou no Peru um festival com a música “Pátria Amada, Idolatrada, Salve, Salve”, parceria com Manduka , filho do poeta Thiago de Mello)


SR – é bom verificar, porque isso aí eu soube, eu recebi essa informação, eu achei tão gostoso isso, fiquei oh que bom que ele tenha ganhado, tava preocupado, tinha saído notícias... Bom mais enfim posso estar enganado também. Pode ter sido um boato e não ter sido verdade. Mas andou fazendo coisas que foram respeitadas lá fora. Sei também de coisas que não agradaram em alguns países.


JV – Teve uma época que ele precisou sair do Chile porque estava se apresentando em programas de TV sem licença de músico e parece que lá é necessário uma licença para se apresentar, e ele não tinha. Foi quando ele foi pra Europa.


SR – Pois é. Essa é a minha contribuição pra tua matéria.


JV – Mas vocês também fizeram um programa juntos na TV Excelsior não foi? O “ensaio geral”?


SR – a gente se apresentava, mas não era junto, cada qual fazia o seu trabalho. Mas nos cruzávamos em várias coisas. No ensaio geral... Eu nunca fui ao Fino da Bossa, não sei se ele chegou a ir. Porque eu tinha, sem saber, tinha um sujeito que me detestava no fino da Bossa, e eu ficava achando que era a Elis Regina que tinha alguma coisa contra mim e não era. Era esse cara que não programava... E ela deve ter pensado que eu esnobava o programa. Ficou essa coisa, só mais tarde é que a gente veio a se falar e virar amigos e tal. Mas nesse mundo aí, nesse Show Busness tem muita confusão, muito mal entendido, muita injustiça.


JV – No Livro “ A Era dos Festivais” do Zuza (Homem de Mello), ele comenta que naquele episódio do festival do “Beto bom de bola” que a Elis e o Vandré foram os primeiros que solidarizaram com você, é verdade?


SR – Exatamente. A Elis foi a primeira a me dar um abraço. Acabei de escrever isso pra uma matéria no Globo que vai saí ainda. Ta fazendo agora 40 anos daquele festival e parece que eles vão fazer aí matérias. Pois é, nós fazíamos isso, estávamos em todas as coisas. Tinha reuniões, por exemplo, de estudantes, de Assembléias, de intelectuais que ele participava e eu também, e a gente estava sempre juntos nessas coisas. Nessas horas foi bonita a nossa relação, e ela continua sendo bonita até hoje, porque o dia que eu encontro com ele, a gente se abraça e... Porque a gente só se encontrava na hora da pesada, mas quando tinha aquela coisa pesada a gente tava junto, a gente se encontrava... Eram passeatas e coisas assim dessa natureza. Reivindicações de estudantes... Eu não sei se ele participava tanto quanto eu porque ele tinha suas indiosincrasias com algumas coisas e eu não tinha nada não, meu problema não era partido era a causa né, então os partidos me chamavam muito pra se filiar mas eu não quis me filiar a nenhum, como ele também não deve ter se filiado a nenhum também. E talvez aquela declaração dele tenha sido mal interpretada porque eu também não quis saber de partido nenhum só bem mais tarde é que eu virei sócio do PT. Mas, porque achava que finalmente houvesse aparecido um partido que viesse a condizer com a nossa luta. Mas... E acho que ele também.. Ou não, né? Não sei... Acho que ele nunca entrou pro PT.


JV – Eu fiz uma entrevista com ele recentemente. Nessa entrevista eu questiono em relação aquela declaração que ele deu à Rede Globo, e ele diz que na verdade houve uma montagem..


SR – Não é de se duvidar. Agora eu não entendo porque ele não canta. Porque não tem que vingar do brasileiro, porque não é por aí, eu acho que isso ta mesmo no desvio.


JV – Quando ele estava no Chile os pais dele foram buscá-lo porque ele estava sofrendo de depressão, foi quando então eles negociaram a volta dele para o Brasil. Ele estava tendo crises fortes e aí quando ele voltou e aconteceu tudo aquilo, ele não quis mais cantar no Brasil. Ele acha que o povo fez dele uma vítima do regime, quando não era nada daquilo. De todos os artistas que foram para o exílio ele foi o único que ao retornar não retomou sua carreira artística. Os outros continuam aí, Chico Buarque, Caetano...


SR – Agora ele, no fundo no fundo ele tem certa razão, porque a gente ficou meio estigmatizado, eu e ele, porque é o seguinte: porque o grande problema é que quando pintou a ditadura e que veio uma nova... Os festivais revelaram os artistas, nós já éramos os artistas que fazíamos a coisa de protesto, a coisa política... E os outros que vieram começaram também a querer fazer, entrar na nossa, não porque queriam entrar na nossa coisa, mas queriam fazer aquilo que a gente estava fazendo, que era uma música de contribuição, de reivindicação.


JV – E até porque era o que chamava o público não é?


SR – Exatamente. Então, logo que veio o AI-5, eles começaram a se organizar de forma empresarial esses artistas e continuaram... Não é nada condenatório isso, não estou falando isso como uma coisa de condenar, é que eu o Vandré e alguns outros, o Théo de Barros, o próprio Hermeto Paschoal e outras pessoas que estavam na nossa leva, ficaram inteiramente marginalizados porque nós continuamos a ser aqueles românticos, entendeu? Essa é a grande diferença que fez com que a gente virasse dinossauros, entendeu? E os novos permanecem até hoje, você vê que é Chico Buarque, que é Caetano Veloso, Gilberto Gil, não sei o quê... O Chico manteve uma bandeira, segurou a bandeira. Os outros partiram para Tropicálias, partiram pra coisas e tal, meio nebulosas em termos ideológicos e na verdade a coisa ficou mais na mão do Chico. E eu fazendo as coisas como o Chico fazia também, de protesto não sei o quê, continuei fazendo, mas só que eu não estava embandeirado naquelas organizações de... a coisa empresarial eu num... Como o Vandré teria sido também. Eu e ele sempre fomos meio a palavra certa é meio “porra-loucas”, no sentido de organização da própria carreira. Conclusão: viramos dinossauros. Se ele tivesse insistido teria ficado na minha posição, ou seja, no ostracismo. Primeiro teria feito um sucesso numa reaparição, mas, logo em seguida teria sido esmagado. Teria difícil pra ele fazer, chegar a fazer um espetáculo, seria difícil, ele iria encontrar muita resistência. Então... Mas isso talvez nem tenha passado pela cabeça dele, ao contrário, ele poderia até achar individualmente que se voltasse a fazer ia ser um sucesso extraordinário. Seria, num primeiro momento, mas se ele não viesse a se organizar como os outros empresarialmente, que eu acho que dificilmente ele aceitaria... Rebelde como eu também... então ele acabaria como eu estou, numa situação que luto, luto, luto...e não acontece. Entendeu? E não sou superado, porque se fosse uma questão de ter ficado datado o meu trabalho e ter ficado uma coisa... Não, eu tô fazendo coisas que... Chico Buarque outro dia esteve em minha casa querendo música pra botar letra. Entendeu? Chegou lá achou uma música maravilhosa, levou, ele achou maravilhosa, levou a música pra fazer letra, quer dizer: não estamos superados, porque o que veio depois da gente em termos de músicas, não nos colocou como pessoas superadas, como artistas superados.


JV – O interesse comercial hoje prevalece, não é?


SR – Prevalece. E cada vez vai piorando, no sentido de qualidade. A ponto de vender o que anda por aí. É uma bagunça, a música virou um objeto descartável insuportável. De alguma maneira com um sucesso lá em cima. Mas, enfim, talvez até tenha-se poupado, sem querer ele poupou a vida dele, por uma determinação de um sofrimento que ele viria a ter...


JV – Eu perguntei a ele em que momento ele decidiu que não cantaria mais no Brasil e por que. Ele disse que em nenhum momento ele decidiu que não cantaria mais no Brasil, que ele continua fazendo música, mas, não comercialmente, e que ele não tem interesse em gravar comercialmente, esse não é o seu objetivo.


SR - Então, então nesse caso... Mas ele teria que ter um objetivo qualquer de fazer pelo menos algo para o sustento dele...


JV – Ele era fiscal da Sunab, se aposentou como fiscal da Sunab e deve ter a aposentadoria dele. Acredito que ele também receba direitos autorais.


SR – muito pouco se comparar com as minhas... é uma coisa muito... Bom, ele deve ser protegido de alguma forma ou de outra, deve ter alguma forma que faz com que ele tenha o do sustento pelo menos. Eu, nem isso tenho, mas, tenho que me virar... Agora eu acho uma pena que ele não esteja na parada. O que acontece é o seguinte, é que a gente tendo sido calado pela censura, proibidos de tocar no rádio, porque a nossa música foi proibida de tocar no rádio, tanto a minha com a dele... Jogaram pra cima da gente um destino muito trágico de um esquecimento.


JV – A revolta do Vandré é que ele acha que foi condenado pela própria sociedade.


SR – Não é bem isso, ele tá errado nisso, a sociedade reclama pela volta dele, mas é que a voz do povo não tem vez, quer dizer, você não ouve a voz do povo, você entrega pro provo a voz que ele tem que repetir. Então, e o povo, o nosso povo realmente ele é, ele é... a palavra certa.. é...submisso. Ele é submisso por natureza, e recebe as informações e as repete.


JV – Como verdade.


SR – Como verdade... Então ele passa a repetiu as verdades que lhe impõem a mídia, o sistema. Mas tem suas preferências. O povo gosta do Vandré, como gosta do meu trabalho, mas é difícil eles receberem porque eles não têm como receber esse trabalho, então eles consomem outras coisas. Eu acho que traído pela sociedade é um pouco exagerado da parte dele. Porque o que aconteceu é que a música brasileira vinha da Bossa Nova para a música de protesto como a gente chamava, como eles chamavam a música política, a música engajada, e depois partiu pra... Como foi proibida, surgiu a Tropicália. Mas os historiadores, os críticos e tal, eles pulam esse pedaço, eles saem da Bossa Nova para tropicália como movimento, mas na verdade o grande movimento foi o nosso, foi o verdadeiro movimento, porque era uma coisa que vinha de baixo pra cima. Isso é uma coisa ruim, entendeu? Porque a gente foi colocado à margem, não só pelo próprio sistema, que era o objetivo do sistema era nos colocar à margem, mas como a sociedade no sentido da crítica, no sentido do reconhecimento histórico, dessa coisa, não na memória do povo, porque o povo tem memória do nosso trabalho até hoje, inclusive. Eu saio nas ruas e as pessoas me conhecem ainda, o Vandré sai às ruas e todo mundo diz: lá vai o Vandré, poxa que bom se ele pudesse ter mais... Se o Vandré estivesse, eu não sei se ele está, mas eu estou ligado nas coisas do computador, por exemplo, e recebo e-mails...


JV – Ele não... Ele não quer saber.


SR – Ele não deve gostar disso. Pois é, eu recebo e-mails com uma reclamação incrível da minha ausência nessa história, e muita gente perguntando sobre o Vandré, mas, não há resposta pra isso. Mas a análise não é bem a do esquecimento da sociedade, não é bem isso. É o esquecimento dos manipuladores da informação. Isso que é a coisa, que um dia ou outro, já diz até o próprio Chico Buarque outro dia em minha casa... Sabe o seu trabalho... Se você disser o meu trabalho estará por extensão falando do trabalho Vandré, Théo de Barros... Esse trabalho um dia será desenterrada e será ouvido por todo mundo, porque tem valor, tem valor não só histórico, como arqueológico mesmo, de uma época, como é bonito, como não foi superado, tem várias coisas aí que ia ser consideráveis. São obras importantes, como se descobrissem de repente os clássicos entendeu? Porque são clássicas essas nossas músicas, então não há porque condenar a sociedade. É tudo filha.

terça-feira, 8 de março de 2011

Entrevista com Chico de Assis (Jornalista e Dramaturgo)

Jeane Vidal – É verdade que quando o Vandré veio pra São Paulo, ele se envolveu em alguns projetos de teatro com você e outras pessoas na época do Arena?


Chico de Assis – Minha historia com o Vandré começa no Rio de Janeiro, quando o teatro de Arena foi pro Rio de Janeiro e lá o Vandré procurou a mim, especificamente. Porque ele queria entrar num grupo que eu estava organizando que se chamava Teatro Jovem. Eu estava organizando um elenco pra montar uma peça do Vianinha (Oduvaldo Vianna) chamada “A mais valia vai acabar”. Ai o Vandré começou a aparecer lá no ensaio. O meu ensaio era aberto então tinha sempre o pessoal da bossa nova, porque o Carlos Lyra fazia musica da peça, então, o Vandré começou a aparecer, depois ele trouxe até a noiva dele pra fazer parte do grupo.


JV - Era a Nilce na época?


CA – Não, chamava-se Zelinda. E o Vandré ele era compositor. Cantava, mas, ele não sabia direito o que ele pretendia da vida. Se ele queria continuar a carreira dele, se ele queria... Ele era advogado.


JV – Isso foi em que ano mais ou menos, 60, 61?


CA - 60, 61. Ele não sabia o rumo que ele deveria tomar. Ai um dia eu falei pra ele : Olha, você tem que decidir, se você acha que realmente o teu destino é ser cantor e ser compositor, você têm pegar isso, não pode ficar... Ai ele veio pra São Paulo e começou a levar a sério esse negócio do compositor e do cantor. Aqui em Sao Paulo, eu acho que ele desenvolveu melhor a carreira dele. Teve um tempo em que eu preparava cantores. Eu preparei a Elis Regina, a Claudia... E o Vandré me chamou pra dar uma mão pra ele, porque ele achava que ele precisava cantar melhor. Eu também achava que ele era muito tenso, essas coisas todas. Daí eu trabalhei com ele nessa parte de expressão como cantor. Eu estive presente naquele festival de “Por que não falei das flores”.


JV – O senhor foi jurado desse festival?


CA – Eu não era jurado desse festival. Eu era jornalista das Folhas. Do Ultima Hora, no caso. E eu estava lá no festival junto com Walter Silva, o Pica-Pau. E quando aconteceu aquele negócio o Walter Silva saiu lá pra brigar, eu também fiquei chateado com aquilo, não porque eu não gostasse da musica do Chico...


JV – Mas, porque exatamente? Por causa da disputa entre as duas musicas?


CA – Por causa da disputa e por causa do comportamento do júri!


JV – Entendi...


CA – “Sábia” era uma musica bonita, uma musica do Tom, letra do Chico Buarque, não é? Então, uma coisa importantíssima. Mas, a música do Vandré era emblemática, tanto é, que ela provou isso, né? Depois ela passou a ser o hino das passeatas e tal. E a gente já tinha percebido isso na música. Mas, o júri, ou por preconceito com o Vandré, - porque o Vandré era tido como um perigoso comunista - nunca foi, e essa coisa toda... Mas, resolveram optar pelo Chico.


JV – Houve pressão dos militares para ela (a música do Vandré) não ganhar, não foi isso?


CA – Olha, quanto a isso, falam muita coisa, mas ninguém prova nada. Então não é bom falar de uma coisa que você não pode provar. Eu acredito que até possa ter havido, porque os militares não gostavam do Vandré. Os militares eles sentiam ali um germe de um comportamento anárquico. De uma coisa que não era bom pro regime militar. Porque todo regime que não tem base ele fica com medo que sopre o primeiro ventinho, daí ele cai, então esse medo que tinha - porque o regime militar ele ficou, desde o dia 1 de abril de 1964 ate 1985, ele ficou sob o impacto dos ventinhos. Porque era uma coisa sem base, em cima do nada, então qualquer coisa que viesse abalava. Festival de Música abalava, um sujeito dava uma opinião abalava, por quê? Porque tudo que e feito em cima de mentira não tem base, não tem estabilidade. E o Vandré falava direto para a crença das pessoas, no que elas acreditavam, e mais do que isso, no que elas queriam.


JV – Ele induzia as pessoas a pensarem, a refletirem?


CA – Acho que não. Ele induzia as pessoas que já pensavam a se unirem, o que é muito mais perigoso. A música, a arte de forma geral, ela não dá palavras de ordem, ela quando tem alguma coisa inclinada, ela ajuda que essa coisa siga o rumo da inclinação. Então era isso que era a musica do Vandré. As pessoas que estavam lá cantando a musica, elas já tinham dentro dela aquilo, ninguém num dia era fascista e no dia seguinte ficou contra o regime militar. Não! As pessoas já eram contra e pegaram aquela música como representando o emblema delas. Então a culpa nunca é do artista. Você veja, por exemplo, a arte do maneirismo, a arte Cristã. Quando a arte Cristã sai da propagando da igreja, os grandes pintores que pintam aquelas obras, aquela coisa toda, não era pra tirar o mulçumano da religião dele e colocar na Cristã. Era para os cristãos terem um emblema. Então da mesma forma a Música Popular Brasileira, não só a do Vandré, mas, de forma geral naquela época, porque a maior parte dos artistas, dos músicos, dos compositores eles eram contra o governo de exceção. Tinham esse sentido de balançar o edifício mal equilibrado daquele golpe. Fale um pouco.


JV – Existia alguma tensão no júri em relação a escolha da musica? O que o senhor sentiu?


CA – Não sei por que eu só estava olhando eles de longe.


JV – Mas o senhor disse que foi lá para brigar por causa do comportamento do júri. O que o senhor percebeu no comportamento deles?


CA – Olha, foi muito estranho, foi a mesma coisa que aconteceu com o Vandré na “Disparada”. Na “Disparada” o oponente dele era o Chico Buarque. Sempre Chico Buarque. Então “A Banda” era uma musica que não tinha esse emblema, não tinha essa coisa toda. E a “Disparada” tinha. “Disparada” tinha algumas palavras, algumas frases “na boiada já fui boi/ boiadeiro já fui rei....”. Então aquela coisa da transformação do homem, esse negócio todo, falava muito perto do ouvido daqueles que já tinham decidido. “Disparada”, inclusive, pelo seu próprio enigma ela não pode alcançar um neófito, um sujeito que está começando a aprender a realidade. No caso de “Sabia” mais ainda, porque o Sabia era uma coisa lírica, sem nenhuma intenção ideológica, a menor, era uma coisa lírica. E do outro lado aquela música contundente. O grande exemplo na história do mundo disso, e da Marselhesa na Franca. A marselhesa não incutiu em ninguém a idéia de Revolução Francesa. A Marselhesa simplesmente uniu e solidificou um movimento como emblema daquilo, e ficou tão forte que transcendeu aquilo e passou a ser um emblema de tudo que acontecia no mundo naquele sentido. Mal comparando com a música do Vandré, que não saiu dos nossos limites, mas, ainda hoje quando tem um movimento qualquer, lá vem a música do Vandré. Os que precisam de um emblema, e todo mundo precisa de um emblema, principalmente o Brasileiro. O Brasileiro se não tiver time de futebol pra ele botar o emblema, ele quer um emblema qualquer de qualquer coisa pra colocar. Porque há uma necessidade na sua posição de desenvolvimento civilizatório, dele se afirmar como cultura incipiente, já que a gente tem muito pouco tempo de cultura. Então precisa disso. Então, se você fizer um hino para o Corinthians, ninguém vai se tornar corintiano por causa do hino, mas, os corintianos vão usar a musica como emblema, então, é mais ou menos por ai.


JV – Aqui em São Paulo o senhor foi um dos fundadores do CPC da UNE, não foi?


CA – Eu fui um dos fundadores do CPC no Rio de Janeiro, o primeiro CPC.


JV – Aqui em São Paulo não?


CA – Aqui em São Paulo também. Rio de Janeiro, São Paulo. E trabalhei no de Santo André e no da Bahia também.


JV – E o Vandré estava envolvido também com o CPC?


CA – No meu tempo não.


JV – Nem aqui em São Paulo?


CA – Não. Pode ser que ele tenha se envolvido depois que eu saí, que fui fazer alguma coisa ele deve ter aparecido, mas não sistematicamente. O Vandré na época ele estava trabalhando a carreira dele, fazendo shows e participando de festivais. Ele teve uma música que não foi muito boa, e que não deu muito retorno que foi a do Caminhoneiro.


JV – “Ventania” no Festival de 66?


CA – “Ventania”. E, ele esperava que fosse repetir alguma coisa e não repetiu, acho que ele ficou meio estranho. O Vandré depois que houve esse episódio... É muito mítico, tem mais mito do que verdade. Por que, verdade, como dizia lá o livro do Jonhson “mito é uma mentira que tem uma verdade dentro”. Agora, pra achar a verdade dentro, nesse caso, é um pouco difícil, porque fica muito sobre o mito, sobre as prisões e torturas, essas coisas e tudo que não sei bem como é que foi isso. Só sei que ele tinha um amigo muito grande que era o Abreu Sodré que o protegia...


JV – Dizem que foi o Abreu Sodré que, na época, o ajudou a sair do País...


CA – O Abreu Sodré era apaixonado por ele. Então, o escondia no Palácio, essas coisas todas. Eu só sei que em um determinado momento, por um motivo ou por outros, ele ficou um pouco atingido no seu discernimento. E passou a ter um comportamento intempestivo que hora era de uma calma, e hora era de uma exaltação de si mesmo, uma coisa terrível. E aí, desde aquele tempo todas as vezes que o encontrei ele sempre, não sei se a minha presença fazia com que ele lembrasse de alguma coisa, esse sempre passava dessa calma pra uma coisa...


JV – Isso antes ou depois do exílio?


CA – Depois. Então ele uma vez me deixou na padaria da Tupi, na Real, conversando comigo saiu gritando na rua contra o governo da época.


JV – Faz tempo isso?


CA – Faz muito tempo. Estava no regime militar ainda. Foi no governo Geisel isso.


JV – Ele voltou para o Brasil em 73.


CA – Aí ele gritava, não vou dizer nem o que ele gritava porque não é de boa educação. Mas ele imprecava contra o governo. No meio da rua. Daí eu o encontrei outra vez, quando ele chegou pra mim e falou assim: lê essa poesia. Aí eu li, era “Fabiana” (música feita em homenagem a FAB). Aí eu falei assim: essa “Fabiana” é a sua namorada? – não, é a Força Aérea Brasileira. Como o poema era as vezes enigmático, eu achei que estava ligado a algum distúrbio dele dessa síndrome de Estocolmo. Você conhece essa síndrome de Estocolmo? É quando a vítima se apaixona pelo algoz. Então eu falei: Será que ele tá com a Síndrome de Estocolmo? Será que é isso que tá acontecendo? Mas isso se alternou com outras coisas. A última vez que eu encontrei o Vandré foi num Candomblé, o Candomblé do Mendes.


JV – Aqui em São Paulo?


CA – É. Encontrei com o Vandré, ele estava legal. Essa época, essa contemporaneidade, do Vandré, minha, ela foi perturbadora, ela exigiu das pessoas que as pessoas fizessem alguma coisa. Qualquer tipo de coisa. E no fazer alguma coisa, essas pessoas foram encontrando, as vezes, caminhos não esperados pra si mesmo. E como talvez não estivesse preparado para assumir esse tipo de comportamento anti-Estado, anti-Governo, talvez tenha provocado nela, não é só o Vandré, uma porção de gente que ficou assim. Os outros que eram gente mais acostumada ao trato político morreram sem chegar nisso, muitos. E outros viveram como eu, entendendo passo a passo o que estava acontecendo. Você quando é um ativista político você não pode sair na rua levando um salva-vidas debaixo do braço, pra em caso de qualquer coisa você usá-lo. Então você tem que ter esse salva-vidas na cabeça, e as vezes as pessoas não tem, e levam um susto com o que está acontecendo em torno dela. Porque o Vandré ele tem muito talento. Muito talento. É talentoso como compositor, é um bom letrista como mostra em “Disparada”, a música não é dele, é do Theo (Théo de Barros). Em “Pra não dizer que não falei das flores” ele faz a música e a letra. A música não chega a ser uma coisa muito expressiva essa coisa toda, mas, a letra carrega a música e leva pra frente. Ele faz parte de uma geração, que é a geração da Bossa Nova que depois se transforma na MPB. E o Vandré foi aquele que passou pela Bossa Nova e já entrou na MPB. Porque a Bossa Nova era um movimento muito suave, eu creio, para o temperamento do Vandré.


JV – Ele dizia que a Bossa Nova recebia muita influência dos EUA.


CA – Bobagem. A música brasileira da bossa nova recebe muito mais influência do México do que Estados Unidos. Toda Bossa Nova é um bolero enrustido. Sabe? Isso é uma coisa que meu parceiro Carlos Lyra, ele dizia isso e ninguém acreditava. Não é americano é mexicano! Então essa geração é uma geração que foi em minha opinião, na República Brasileira depois do Império, a geração mais dinâmica que houve. Ela experimentou os golpes, as pancadas, as derrotas e as vitórias. E as construções. O que foi construído naquela época é base de tudo de bom que está sendo feito hoje, nas artes e fora das artes. Aqueles garotos que não eram das artes, um é governador de São Paulo, o outro é isso, o outro é aquilo. Então na política, em tudo, aquela geração forjou tudo que está acontecendo hoje em dia de bom. As porcarias vieram de outras fontes. Então é uma geração que se provou na prática. Eu diria que a geração da coragem de se assumir, não só como pessoa, como geração.


JV – O que não se vê hoje não é mesmo?


CA – Não hoje não. Hoje há uma timidez...


JV – As pessoas vivem num estado de inércia...


CA – O problema sabe, é uma palavra só. A grana. Hoje em dia os garotos de 13,14 anos eles já pensam na grana, então eles querem saber da grana. Na minha época a gente não pensava absolutamente na grana. A gente pensava em fazer coisas. O que nós vamos fazer? Vamos fazer isso, vamos fazer aquilo, vamos fazer o cinema novo, o teatro novo, a música nova, a cultura nova, história nova, tudo isso estava se fazendo de novo. Esse processo era um processo de... Não tinha o que pagasse. Então, essa geração teve vários produtos que são muito forte, um deles é Geraldo Vandré. E o Geraldo Vandré ele teve a sensibilidade de entender que a nação brasileira durante os anos de chumbo precisava de um emblema, ela precisava se auto-reconhecer na arte. Então ele fez aquela música que deu um resultado preciso, tanto a “Disparada” quanto a “Pra não dizer que não falei das flores”. Por coincidência do destino ele iria disputar com Chico Buarque nas duas coisas. O Chico Buarque que era tido como um perigoso comunista, não era comunista, era um sujeito de esquerda sim, mas não era comunista. O Vandré também não era comunista, era um sujeito de esquerda sim, mas não era comunista. Mas, os meios de divulgação do governo e as pessoas que eram colocadas pelo governo nos jornais, achavam né?


JV – A mídia fomentava um pouco essa idéia dele ser perigoso para o Regime?


CA – Sim. A mídia era muito cerceada na época. Eu era jornalista então eu sei o que era isso. Muito cerceada. E o pior que tudo, pra não ser cerceada a mídia se auto-regulava. Então dava uma puxadinha no saco do governo aqui, pra poder falar uma coisinha aqui. Uma permuta nojenta, mas digna dos governos militares. Então dentro de tudo isso, o Vandré fez um trabalho muito bom com o Quarteto Novo. Porque o Quarteto Novo o acompanhava nos shows e o Quarteto Novo foi uma das maiores coisas que aconteceu no Brasil. Eles, um tempo ensaiavam na minha casa, o pessoal do Quarteto Novo.


JV - Voltando ao Vandré. Essa época que ele trabalhou com senhor ele chegou a encenar alguma peça? Porque eu li que quando ele veio para São Paulo, veio trabalhar com o Augusto Boal e com o senhor.


CA – Com o Boal eu não sei. Comigo, eu ensaiei ele como cantor.


JV – Só como cantor?


CA – É. Eu o ensaiei como cantor. Isso foi logo depois de 64, quando eu estava meio sem possibilidades. Eu estava trabalhando no Ministério da Educação, em 64. Estava lá no Serviço Nacional de Teatro quando estourou toda aquela bosta eu fiquei meio...


JV – O Senhor chegou a ser preso?


CA – Não. Não me deixei ser preso.


JV – Chegou a sair do Brasil?


CA – Não. Eu fui procurado. Depois quando já não interessava mais me prender eu fui impedido de trabalhar em algumas coisas. Eu fui censurado de forma total, ou seja, nada do que eu fizesse era pra ser aprovado. Essas coisas. Mas, nunca fugi de casa e também nunca fui preso.


JV – Na TV Excelsior o senhor foi um dos mentores do programa “Ensaio Geral”, não foi isso?


CA – do Ensaio Geral? Fui.


JV – E o Vandré se apresentava nesse programa?


CA – Se apresentava.


JV – Como era as apresentações dele , o senhor se lembra?


CA – Cantava as músicas dele. No Ensaio Geral nós tínhamos 70 cantores. Era a nova geração da música brasileira completa. Baby, Caetano, Betânia, Gil, tudo mundo lá, Sidney Myller, o melhor da geração estava lá. Foi em minha opinião o maior e o melhor programa de música brasileira que já foi feito no Brasil. Foi Ensaio Geral. O Vandré, como o Lyra, como qualquer outro daqueles nomes da Bossa Nova que se desviaram para esquerda, ele não podem ser examinados a margem do fato. Do fato governo militar e do que as pessoas tinha que fazer contra aquele governo e a favor de uma volta a democracia. Eles não podem sem analisados apenas como cantores e compositores. Eles não são. Eles são agentes do povo em determinado momento. Então essa é a diferença que hoje não tem. Hoje não tem nenhum agente do povo mais. O povo que se dane como diz o outro. Ninguém pensa no povo. Pensa no povo como comprador de seus discos, pra bater na palma na platéia...


JV – Apenas como consumidor, não é?


CA – É verdade. Não como agente da história. Até é uma besteira, se não for o povo quem faz a história, eu não sei quem é que vai fazer. Se um dia ficar provado que a história se faz no Congresso da República, eu realmente só tenho um caminho: o suicídio. Eu acho que a história se faz com o povo. É o povo que vai carregando... E principalmente o povo brasileiro que carrega esse País, que tem o ônus de carregar! E não é só o povo povão não! É a classe média! Que carrega esse país nas costas, que paga mais imposto que qualquer lugar do mundo, que trabalha pra cachorro! O Brasileiro é um povo muito trabalhador, embora as pessoas digam que baiano não trabalha, carioca não trabalha. Tudo isso é mentira, isso é mentira! O pessoal não conhece o Brasil, não sabem o que estão falando. Então esses... O outro é o Sérgio Ricardo. O Sérgio Ricardo foi muito importante também, não é porque é meu compadre, mas ele foi muito importante. E como eu sou um pouco responsável pela politização dele, como sou do Lyra também, aquele pessoal todo. Você leu o livro do Zuza Homem de Mello?


JV – A Era dos Festivais? Li.


CA – No livro você vai encontrar...


JV – No livro ele cita que o senhor era um dos jurados no III FIC...


CA – Mas no livro dele ele diz que quem virou a Bossa Nova pra MPB fui eu. Eu pessoalmente. Então, não fui eu pessoalmente. Isso aí é uma coisa que não é assim. Agora, quem apressou a tendência fui eu. Fiz a Bossa Nova virar outra coisa. Porque a Bossa Nova era muito suave. Imagina, numa época em que tinha gente morrendo nos porões da ditadura: “e o barquinho vai...” num era bem a coisa, embora eu adore essa música, eu acho que a Bossa Nova foi o movimento mais bonito...


JV – Ela era meio elitizada, não? CA – A Bossa Nova?


JV – É.


CA – De certa forma, se você considerar que a Classe Média é uma elite, sim. Mas não era do ponto de vista cultural essas coisas. Ela tinha pontos que se destacavam, mas não era uma coisa geral. Você tinha ali muito talento musical, muito talento poético, essa coisa toda. E na MPB você tinha mais uma coisa: você tinha aliança, aliança com o povo. Então essa aliança ela fez com que a MPB suplantasse a Bossa Nova rapidamente. Porque quando você pega, vou dar um exemplo pra você: teve um festival que o Jhonny Alf colocou uma música, como é o nome da música? “Eu e a Brisa”. No dia que essa música foi julgada pelo júri eu estava trabalhando na “Última Hora” na época e o Solano Ribeiro era quem produziu o festival, e eu ali por trás da cortina soube que o júri tinha podado a música do Jhonny Alf. Aí o cheguei pro Solano e disse: Solano esse pessoal é louco, essa música vai durar a vida toda. Ele vai ter mais de 10 mil gravações, esse pessoal é idiota, eles não sabem o que estão fazendo. Não deu outra. “Eu e a Brisa” é um dos ícones da Canção Brasileira e a canção que ganhou na época... Qual foi? Eu nem lembro.


JV – Não é aquele festival que “Ponteio” ganhou não, é?


CA – Não. Esse festival que “Ponteio” ganhou eu peguei o fotógrafo do “Última Hora” e disse: Fotografa o ganhador do Festival. No 1° dia, ele ainda não tinha cantado a música. Eu já conhecia a música. Peguei ele e o Capinam: Fotografa aí os vencedores do festival. Eu sabia que ia ganhar. A música tinha tudo para o emblema. Embora fosse uma música decodificada. Naquele tempo as músicas elas tinham maquiagem, então quando você diz: “quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar...” embutido nisso tem a liberdade. Mas, essa época o Vandré é o mais louco dos representantes. Mas todos os outros são igualmente dinâmicos e alcançaram cada um o seu pedaço. O Sérgio Ricardo talvez seja o mais sério de todos. “Calabouço” que foi uma música que o exército tremia, desesperados.


JV – Houve uma peça de teatro com esse mesmo nome não é?


CA – Não me lembro. Mas eu em determinado tempo da minha vida, eu junto com o Sérgio Ricardo, Ary Toledo, Geraldo Vandré, formamos uma firma chamada ONDA – Organização Nacional de Divulgação Artística.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Entrevista com Jair Rodrigues (Realizada em Outubro/2007 para o Livro Vandré:Tempo de Repouso)



Jeane Vidal - Começou com Disparada sua relação com o Vandré ou ela já existia?
Jair – Não, foi muito antes, porque quando eu gravei o meu primeiro disco em 1962... E depois a gente foi dando continuidade às gravações, eu me lembro que eu regravei muita coisa. Porque o Geraldo Vandré não tem só Disparada. Ele tinha música com Carlos Lyra, com o Baden Powell, com o Vinícius, Fernando Lona, Theo de Barros, e eu me lembro que eu regravei Aroeira, gravei Rosa Hortência Margarida. E eu não conhecia o Vandré, conhecia assim de composições, mas, de estar juntos pra conversarmos não.

JV – Quando você gravou essas músicas, não havia ainda esse contato?
Jair – Não havia ainda esse contato. E quando eu fui defender Disparada, eu conhecia mais o pessoal do Trio Marayá e do Quarteto Novo, que era o Heraldo, o Hermeto Pascoal, o Theo e o Airton Moreira. Eles eu já conhecia. Conhecia esse pessoal todo. Aliás, foi até o Hilton Acioli que me apresentou Disparada. O Solano Ribeiro quando ia começar o Festival, ele começou a chamar os artistas para interpretar. E eu me lembro que me deram uma música que era Canção para Maria do Paulinho da Viola e do Capinan. E de repente eu já estava aprendendo a música para começar o ensaio, aí o Hilton Acioli falou comigo: olha eu tenho uma música aí, já falei com o Solano Ribeiro, eu sei que você já tem uma, mas eu falei com o Solano, e se você gostar da música não tem problema, você defende duas. Então eu marquei com ele lá em casa, ali no centro, na Rua Aurora quase esquina com a São João, ele foi lá, minha mãe estava fazendo almoço quando ele chegou, começou mostrar a música, aí eu notei que começou descer o pessoal do prédio e ficaram ali escutando. A minha mãe parou de fazer a comida e começou a prestar atenção na música... Se tivesse que ter um 1º lugar já teria ali mesmo, lá no prédio mesmo. Aí, eu me encontrei com o Geraldo me falando a seguinte palavra, porque o Geraldo ficou meio estranho quando o Hilton Acioli me convidou, ele ainda não atinava nada sobre mim, eu era e Graças a Deus sou até hoje, aquilo era nato, coisa minha, de fazer minhas bagunças, plantar bananeira, chamava todo mundo de cachorrão. Então ele chegou a dizer para que eu não brincasse com a música dele porque a música dele era uma coisa séria, aí eu o mandei à merda. Vai-te à merda rapaz! Então você não me conhece! Eu fui crooner, cantei durante 10 anos na noite, então a gente cantava de tudo. Então não é porque eu fazia essas brincadeiras... “Pô”, quando eu pego uma música, já sei o que a música quer dizer. Aí, depois ele me pediu mil desculpas. Eu falei: não, tá tudo bem, você até tinha razão, você não me conhece, sempre me vê na televisão daquela forma. E foi assim depois os nossos papos. Mas era muito esporádico. O Vandré nunca foi de se chegar, sempre foi um cara meio reservado, só tinha mesmo amizade com o trio Marayá, às vezes nem com o trio, né? Com o Behring, ele tinha muita amizade com o Behring, com o Hilton Acioli, ele sempre foi reservado, nunca participava dos papos, era assim todo estranho. Eu me lembro que ele ia ter um programa só dele, acho que não chegou nem a ir no ar.

JV – Chegou sim, ficou no ar por volta de 2 meses...
Jair – E eu fui convidado a participar dos programas, mas aí no dia da gravação eu também tinha meus compromissos e nem pude participar. Depois eu fiquei sabendo que o programa entrou no ar, mas saiu logo, né.
E eu encontrei com o Vandré tem uns 2 meses atrás. E antes, quando ele voltou do exílio, eu estava fazendo show numa casa lá perto do Aeroporto. Eu morava lá na Av. Iraí. Aqui no Aeroporto de Congonhas. Aí de repente, eu estava ensaiando numa casa lá, quando eu olhei Geraldo Vandré Cabeludo. Aí chegou, ficou me olhando, ficou bem na minha frente, aí eu convidei. “Pô” Vandré, vai amanhã lá em casa. No outro dia ele foi à minha casa com a secretária dele. De repente sumiu, nunca mais eu vi o Vandré. Há um mês e meio atrás eu estava me preparando para lançar outro disco de nº 46 que é Jair em branco e preto. Aí eu me lembrei que o Vandré tinha falado pro Fernando Faro, o Fernando Faro vem muito jogar bola aqui, tem um campinho de futebol aí, então ele vem. Eu fui abrir o portão para Fernando Faro, e quando eu abri o portão, eu vi que o Fernando Faro estava no telefone, aí ele falou: Tô falando com o Vandré. Tem uns 3 meses, depois de 1 mês e meio, a gente se encontrou. Então uns 3, 4 meses atrás, o Fernando Faro falou: sabe com quem eu tô na linha? Com o Vandré e ele quer falar com você.
- Fala aí Vandré?
- Quem fala?
- É o Jair.
- Ô Jair, tudo bem? Olha quando é que você vai fazer um disco só com as minhas músicas? Eu gostaria que você gravasse um disco só com as minhas músicas.
- “Pô” Vandré, seria super legal e demorou; eu vou fazer isso... - E comecei a correr atrás. Encontrei com o Manoel Barembem que é um produtor que conheceu muito o Geraldo Vandré, aí eu contei esse caso para o Barembem. O Barembem falou: olha tem o Renato Teixeira que Vandré mostrou umas “trocentas” músicas inéditas. Aí eu falei: Pô, legal, eu vou falar com o Renato Teixeira e se ele não for gravar a música... “Pô” porque eu não vou fazer regravações do Vandré, eu já gravei quase todas! Já gravei “Pra não dizer que não falei das flores”, já gravei Disparada, Aroeira, Margarida... Aí não pude falar com o Renato. Quando foi um mês, um mês e pouco, acho não foi nem um mês, eu liguei para o Behring e falei: Behring, olha o Vandré havia me falado sobre eu gravar a música. Ele (o Bhering) falou: “Pô” Jair, eu vou ligar e marcar da gente se encontrar. Eu dei meu telefone e o Vandré me ligou.
- Jair, você ta na cidade?
- Não, mas eu “to” indo amanhã.
- Você quer almoçar com a gente?
- Vamos, almoçar!
- Você gosta de peixe?
- “Pô” adoro...
A gente marcou ali no estúdio, no estúdio da trama, na Alves Guimarães.
Aí a gente comeu, mas, eu não entendi nada. Porque o Vandré... A gente foi a pé para o Restaurante, conversando, e o Vandré ficou atrás da gente, aí eu percebi que ele estava fotografando...
- Você virou fotógrafo agora Vandré?
- Não, não, vão conversando aí que o papo de vocês é outro.
- Que papo de vocês é outro? O papo nosso é aqui mesmo. Aí a gente chegou ao restaurante, ele sentou lá um bocadinho, daqui a pouco ele se levantou, foi lá atrás e pegou a filmadora, começou a filmar e bater foto.
Eu disse: Vamos conversar “veio”, vem cá, vamos ver quais são suas músicas.
Ele disse assim: negócio é o seguinte...
- Ô Geraldo, ô Vandré!
- Eu não sou o Vandré! Eu sou o advogado do Geraldo Vandré, e falou o nome todo.
- Vandré ainda não voltou do exílio.
- Deixa de besteira rapaz, senta aí e vamos conversar. Aí a gente começa a conversar, mas aí eu não sei se isso faz bem para ele, deixar a gente pensando que ele tá pirado.
Aí eu falei. Vem cá véio, vamos bater um papo. Então, e as suas músicas? Olha me interessa muito, a gente gravar, a gente pode gravar no estúdio lá do Behring e já falei com o Manoel Barembem, ele pode produzir porque ele é um grande produtor. Aí ele fala que queria que a Simone também participasse.
- Eu digo: Perfeitamente!
- Simone inclusive gravou muito bem “Pra não dizer que não falei das flores”.
- Olha, mas eu quero que você grave Disparada e a Simone, grava Caminhando.
- Aí eu digo: ”Pô” Vandré eu to sabendo que você mostrou para Renato Teixeira “trocentas” músicas novas tuas, vamos ouvir suas músicas, vamos marcar lá no estúdio do Behring. Você grava todas as músicas, depois a gente escolhe para gravar 14.
Bom, então eu vou fazer o seguinte. Eu detesto frio, eu adoro calor, e sou um cara que de repente você me procura e eu “to” lá na praia do norte, sozinho. Então, eu vou fazer o seguinte: eu “to” indo para o México, vou ficar lá um tempo aí eu vou me lembrar da músicas novas que eu tenho e quando eu lembrar tudo direitinho te telefono e você vai pra lá e nós vamos fazer uns shows na fronteira.
- Pô Vandré, assim não dá! Como você vai para lá? A gente tem que gravar é aqui. Você quer gravar as músicas lá, só de músicos, “pô” músicos mexicanos são bons nas músicas deles, vai ficar muito caro, vamos gravar aqui.
- Então eu vou para lá, quando eu voltar eu já falo com o Behring, a gente se junta e grava, tá bom assim?
- Tá, ta bom assim.
- Eu até falei para o Behring: Behring você que foi muito amigo do Vandré, é amigo, o Vandré tem problemas com a censura quando ele foi embora, judiaram dele? Ele disse: não, o Vandré sofreu muito...
Aí eu comecei prestar atenção porque o Behring disse que de fato eles iam pegá-lo.
- Eles iam pegar o Vandré para sumir com ele.
Aí eles avisaram o Vandré.
Jeane veja bem: eu estou aqui dentro da minha casa aí de repente eu recebo um ultimato que eu tenho 5 minutos para sair, para ir, para não sei onde, fora do Brasil. Como é que fica minha cabeça.
- A pessoa fica totalmente desestruturada.
- Fica, o desestruturou todo. E eu me lembro quando ele voltou do exílio, ele veio até aqui em casa.
Eu já me encontrei com ele umas 4 vezes depois que ele voltou do exílio.
E uma das vezes, que ainda ninguém falava de gravá-lo, a secretária dele me ligou e falou: onde é que você tá morando Jair? Aqui é a secretária do Vandré e eu cuido da Editora Benvirá produções. O Geraldo Vandré quer ir aí à sua casa. Aí, eu dei o endereço e eles vieram, aí foi quando ele falou, eu quero te mostrar umas músicas e começou a cantar um tango em espanhol, aí eu perguntei: isso é teu? Aí eu peguei o gravador para gravar e ele disse que não, eu não quero que você grave não, primeiro eu quero te mostrar. Aí, ele começou mostrar músicas que eu já conhecia. “Pô” Geraldo Vandré eu vou te falar uma coisa, ô véio, todas as gravadoras, a Movie Play, a Som Livre, a Nova Copacabana, a Philips, estão lá, doidas, querendo fazer um disco com você porque você é um dos ícones da MPB, o povão tá com saudade de você. Quando eu falei povão, ele se levantou: não me fale em povo, não gosto do povo, povo para mim é lombriga. Aí, ele falou assim: eu vim te convidar aqui para a gente cantar nas fronteiras, a gente vai cantar nas fronteiras do Paraguai, Uruguai e se não tiver ninguém lá para gente cantar nas fronteiras, a gente canta para um pé de couve, pé de alface, pé de coentro.
Agora recentemente eu contei para o Behring essa história, e eu perguntei: O Vandré sofreu aquele negócio, o pessoal mexeu com a cabeça dele, deram choque?
- Não, não aconteceu nada. Era para acontecer muito pior, mas, a gente avisou e ele vazou antes. É que ele chegou lá sozinho, né? longe de todo mundo...
Eu soube, não sei se é verdade, que ele foi parar em Paris.

JV – Ele ficou 18 meses em Paris.
Jair - Foi lá que ele fez Das Terras do Benvirá...

JV – Eles gravaram em 70, mas foi editado no Brasil só em 73.
Jair – É, e aí depois quando eu fui lá a Paris: Puxa, vou ver se eu encontro o Vandré. Aí eu fiquei sabendo que ele não “tava” mais, tinha vindo não sei se para o Paraguai...

JV – Chile.
Jair – Do Chile é que ele veio para cá né?

JV – Houve uma negociação entre o governo brasileiro e os familiares dele para permitir que ele voltasse porque ele não estava bem de saúde.
Jair – Ele voltou para o mesmo apartamento dele antigo, e a gente sente, eu sinto porque eu gosto, te juro por Deus, eu acho o Geraldo Vandré, se não for o maior compositor dos anos 50, 60 para cá, é um deles. As músicas deles são muito bem feitas, as letras bem feitas, desde Caminhando, Disparada, Aroeira e tantas e tantas outras “Quem quiser encontra o amor...

JV – Eu assisti a uma apresentação do Carlos Lyra no Memorial da América Latina, ele cantou Quem quiser encontrar o amor.
Jair – A que eu gravei foi Aroeira que é talvez a mais brava de todas. Talvez essa seja mais forte e não prestaram muita atenção...

JV – Na verdade a música que chamou atenção mesmo dos militares foi Caminhando e Disparada também. Eu li uma entrevista sua onde você disse que todo mundo podia cantar Disparada, mas se Vandré cantasse, os militares, caíam em cima...
Jair – Foi, foi os próprios... aquele pessoal porque eu tinha amizades... O meu irmão era sargento do exército, aí meu irmão falou: Jair você não se meta com esse negócio de esquerda festiva, continua assim como você tá, porque tá uma confusão, você tem outro estilo, o pessoal gosta muito de você, então eu falei: não, eu não vou me meter nisso não. Quando eu soube depois que o Geraldo Vandré ia defender Disparada....

JV – Ele tinha uma excursão pela Rhodia...
Jair - É ele tinha uma excursão pela Rhodia e ao mesmo tempo eu fiquei sabendo que se fosse o Vandré a defender a música eles iam tirar a música do festival. Ainda mais essa. Eu fiquei sabendo, eu “to” vendendo para você, mas eu comprei assim, dessa forma, não sei se foi verdade ou não.

JV - O que o Behring me contou é que o Vandré tinha dado a música para Trio Marayá defender com o Quarteto Novo. Só que aí eles queriam usar a queixada de burro na percussão, mas quando estavam ensaiando o som da queixada entrava muito no microfone porque eles cantavam ao mesmo tempo que tocavam então o som entrava muito e atrapalhava. E aí foi quando eles decidiram procurar um solista para cantar e eles fariam o backing. Foi quando o Hilton Acioli disse que lembrou de uma entrevista que você havia dado dizendo que já tinha cantado moda de viola com seu irmão quando era pequeno e aí, ele teve a idéia de te chamar.
Jair – A gente chegou à conclusão de que o que é da onça o lobo não come. Essa música tinha que vir. Depois, nos anos 80 uma outra música apareceu na minha vida... Hoje taí um clássico que é Majestade o Sabiá. Quando você for falar de Roberta Miranda, você já sabe que essa história é minha: Eu de repente fui gravar pela Nova Copacabana, aí eu entrei lá para dar o repertório para a produção, e dois meninos saíram de lá e vieram me mostrar a música. Eu nem sabia quem era a moça, aí fiquei sabendo que ela era a Roberta Miranda e os dois meninos eram o Chitãozinho e Xororó.
“Ó essa moça tá mostrando essa música e tal, então, nós já gravamos, nosso disco vai sair agora, você não quer ouvi-la”
Como foi com Disparada, uma coisa de louco né... Os meus maiores sucessos foram dessa forma. “Deixa isso pra lá” apareceu em 64, a produção não queria gravar de jeito nenhum. O produtor não queria gravar de jeito nenhum. Pô, você vai gravar essa merda aí. Você é um “puta” de um sambista, a gente escolheu mil músicas para você e você quer gravar isso aí? Eu gostaria sim porque é uma música que faz muito sucesso lá na boate onde eu canto. Então grava essa merda aí. Acabou virando um clássico.
Do Geraldo, eu adoro, juro por Deus, gosto do que ele faz, eu até queria, eu ainda vou me comunicar com o Behring, vou ligar para ele e ver se ele já conseguiu as músicas inéditas.

JV – Ele é imprevisível não é? O Borges me falou que durante 6 meses eles trabalharam em cima de um documentário sobre ele, planejaram alguns shows no interior de São Paulo e de uma hora pra outra, ele resolveu não fazer mais nada...
Jair – E a maioria dos autores, das pessoas que fizeram esse país musicalmente, o Vandré também foi um deles, hoje se pega um pessoal desse para gravar, eles vêem. E o Vandré quer ser esquecido...

JV – Ele se sente traído. Ele disse em uma entrevista que quando ele voltou do exílio os amigos o receberam com decepção, queriam-no mártir e morto.
Jair – Não, ele tá errado... Pode ser que exista alguém que pense assim, mas, não é não, eu mesmo quando o vi fiquei super feliz.

JV – Você estava no Festival de Caminhando...
Jair – Não, eu não estava. Eu assisti pela Globo. Mas, eu vi que teve uma confusão, porque o pessoal queria o Vandré em 1º lugar e ele acabou ficando em 2º... Eu gosto muito dele, tenho um tremendo respeito, quando você pára para conversar legal, aí quando ele começa a conversar e ele percebe que você tá prestando atenção no papo, ele solta: Geraldo Vandré ainda não voltou do exílio...

JV - Sobre o programa Frente Ampla...
Jair – Quando terminou o Fino da Bossa, terminou também o do Chico, vários programas musicais saíram do ar e eu... Chegou uma época que nós fomos meio que proibidos a ir a outro programa. Porque, veja bem, se você tem um programa Fino da Bossa e vai ao Jovem Guarda, não vai marcar e cada artista tem que marcar no seu programa. Então quando o Fino da Bossa saiu do ar, eu comecei a ir sim, eu não tinha mais contrato, o único contrato que assinei foi o Fino da Bossa na época e depois eu fui Freelancer a vida toda. Então, depois, eu ia aos outros programas porque eu não tinha mais contrato. Mas esse programa Frente Ampla, gozado, eu não lembro e é uma pena porque a Record é que podia mostrar tudo isso, mas, infelizmente esses 3 ou 4 incêndios destruiu tudo...
Já me perguntaram tantas e tantas vezes se Disparada havia perdido para a Banda nos jurados. No júri popular era disparadamente Disparada, tanto é que eles fizeram até um negócio, porque nesse ano eu classifiquei também Canção para Maria do Paulinho da Viola... ficou em 3º. Quando foi para apresentar o 1º lugar, o Handal Juliano falou: E vamos chamar ao palco Chico Buarque de Holanda e Nara Leão. Aí os caras disseram: Ih, Disparada dançou... Aí foi uma vaia estrondosa e vamos chamar ao palco, Senhoras e Senhores, calma ele falou. Vamos chamar ao palco Nara Leão, Chico Buarque e Jair Rodrigues aí os caras entenderam.

JV – No livro do Zuza, ele diz que você foi embora, depois que anunciaram que você havia se classificado em 3º lugar com Canção para Maria. Aí mandaram te chamar porque tinha uma surpresa.
Jair – Foi, estava indo embora. Aí eles: Volta Jair! Pô, eu já cantei! Não você vai entrar de novo. Aí, diz que o Chico, eu vi depois... Porque quando eu entrei com Canção para Maria, eu pensei: já dancei. Eu vi o Chico na coxia com a Nara, eu pensei: eles foram os vencedores, mas nossa, quando o Randal Juliano anunciou dessa forma foi uma vaia estrondosa: Jair! Jair! Jair! E olha a direção da TV Record resolveu por bem dar empate entre a Banda e a Disparada.
É porque ele viu também que “tava” bravo o negócio. Foi o Paulinho de Carvalho que foi lá e fez o júri mudar as coisas, muda aí porque vai dar confusão qualquer uma das duas que ficar em 1º lugar vai dar confusão. Aí chegaram a feliz conclusão que o empate seria melhor.
Quando saiu meu disco... Porque quando o Vandré foi para Rhodia fazer a excursão, você sabe que depois do festival era para ter saído meu disco o compacto. Eu também defendi a música do Paulinho da Viola e do Capinan que foi Canção para Maria quando Disparada foi a vencedora. O compacto simples tava na cara que de um lado era Disparada e do outro Canção para Maria, mas, não foi. Anunciaram que “tava”saindo meu disco e faziam fila no largo do Paissandu. Quando no final do festival no outro dia já era para estar o meu disco na rua, como eu tinha gravado na Philips... aí a Philips ficou danada porque não achava o Vandré para assinar, o Theo assinou, mas o Vandré eles não localizaram.

JV – Mas eles não estavam juntos?
Jair – Minto, minto, eu sei que eles não encontraram o Vandré de jeito nenhum. Quando acharam o Vandré, ele assinou, mas, com a exigência de que deveria ter do outro lado do compacto uma música dele. Como eu já tinha gravado fica mal com Deus, aí pegaram a gravação de Fica mal com Deus e tiraram Canção para Maria.
O Paulinho da Viola ficou muito... Eu acho que ele não soube do que aconteceu, ele soube agora recentemente que eu contei pra ele... Eu notava rapaz que você era meio assim afastado de mim, aí eu contei a história. Não, Jair eu já tinha até esquecido... Ele disse que é porque era a música que a avó dele mais gostava e quando saiu meu disco com Disparada, a gravação dele saiu primeiro, depois saiu a minha. Muita gente devolveu a dele porque queria a minha. Meu disco saiu 15 dias depois do Festival. A gravação ao vivo não fica boa, aí eu fiz a gravação no estúdio para o disco. Aí quando saiu o disco que eu fui divulgar no rádio, eu levei um choque porque eu vi estampado assim em letras garrafais: “Proibida a execução pública da música Disparada em todo o território nacional” – Obs: Com Geraldo Vandré.
Tava estampado em toda a emissora de rádio. O pessoal da Philips falou... ô Jair Graças a Deus que a sua não foi proibida.
O problema era com ele, com Gonzaguinha, com o Chico Buarque e o Chico tem várias músicas que é dele, mas ele registrou com outro nome.