terça-feira, 3 de maio de 2011

Entrevista com Alberto Helena Júnior (Jornalista e Comentarista Esportivo) - 1ª Parte




Alberto Helena - O Vandré é o seguinte: O Vandré ele começou fazendo música romântica, e na verdade ele se orgulhava muito de ser bom cantor...

Jeane Vidal – A princípio ele só compunha?

Alberto Helena - Não, ele começou cantando, depois começou compor.

Jeane – Ele gravou um disco com imitações do Francisco Alves e  Orlando Silva, inclusive foi financiado pela mãe dele.

Alberto Helena – Eu não sei... Então ele começou assim, começou a compor música romântica, isso antes do grande movimento da MPB. Aí ele... Primeiro, a grande participação dele foi no l° festival da Música Popular Brasileira em 65, que foi na Excelsior, não na Record. Ele defendeu uma música do Chico Buarque, uma marcha rancho, se não me engano, ele com a Tuca, que era uma cantora que cantava com ele, o que a gente chamava de marcha do João XXIII, que era nova mão, pé no chão e tal né... Naquela época fervilhava a questão política, o público jovem, o pessoal era muito de esquerda e achava que aquela música era um pouco “cristiana” demais (risos). E o Vandré de repente saiu dessa linha e entrou na linha da música de protesto. Porque isso aconteceu assim: é preciso que você tenha, pelo menos se não tiver, uma visão do contexto da época, eu estou falando do começo dos anos 60.  A música brasileira ela se definiu como tal quando ela ganhou característica como música brasileira nos anos 30, final dos anos 20, dos anos 30 até mais ou menos, metade dos anos 40, fim da guerra. Nesse período, que havia uma noção de nacionalidade muito grande, forte, no Brasil, com a ditadura Vargas e tudo mais, a música brasileira ganhou um perfil, ganhou uma cara, uma característica e tal, com o choro, samba, as marchinhas de carnaval, as serestas, várias modalidades, mais a música folclórica do nordeste, do Rio Grande do Sul, enfim, ali ela ganhou uma característica, e o samba era o gênero principal, era o mais característico, principalmente o samba carioca. Então, a partir de 45, depois da guerra, começa  a grande influência americana, a influência através dos Estados Unidos. Então o que fazia sucesso nos Estados Unidos rebatia aqui, então podia ir desde o Jazz, até o mambo, o bolero, as músicas caribenhas e tal que faziam sucesso lá, através da política da boa vizinhança lá de Hollywood, dos filmes, musicais, etc e tal, e das gravações, rebatia no Brasil, e porque houve uma grande imigração do europeu para o Brasil durante a guerra, também as músicas de outros, música italiana, música espanhola, música francesa, os hábitos mudaram. O que antigamente era um cabaré virou uma boate no estilo bem francês. Então foi mudando essa característica da música e ficou uma coisa muito difusa. O samba virou sambalado ou sambolero, como dizia Ari Barroso. Ele reduziu o andamento pra ser ouvido e dançado em boate e tal, os cantores foram perdendo o potencial da voz, passou a ser uma coisa mais sussurrada, então, aí era o império da breguice. Quando surge a bossa nova no final dos anos 50, começo dos anos 60 e que vem com essa idéia de fazer uma música mais refinada, baseada no Jazz, o jazz americano, principalmente o cool jazz, o jazz mais de gabinete, mais de trio,  quartetos e tal, e isso criou a bossa nova. O João Gilberto fez uma releitura daquela música brasileira dos anos 40, e isso prevaleceu. Mas aí surgiu com um grande movimento, movimento dos jovens, mas não tinha muita penetração popular. Aí quando no começo dos anos 60 cresce a questão política no Brasil, a luta entre esquerda e direita e os jovens muito participantes, muito militantes, universitários e tal, a bossa nova começa ser questionada como sendo uma  música de  classe média alta, distante do povo, música de apartamento com o se dizia, um banquinho, um violão, a coisa muito intimista que não tinha o poder de... E agia na época a idéia de que tudo, todas as artes, teatro, cinema, música, enfim, deveria fazer parte desse movimento político pra ajudar no caminho da evolução, da conscientização do povo, porque se dizia o seguinte: o povo é alienado, precisa desalienar, é preciso dar consciência política a esse povo, mostrar o que é o lado bom e o lado ruim. Então nesse processo a música popular entrou pra valer muito mais, porque ela era mais poderosa que o cinema, por exemplo, nacional que os recursos eram pobres em relação ao cinema americano, e mais do que o teatro que o povo brasileiro  não tem o hábito de ir ao teatro e a música, no entanto, ela tinha esse poder, esse canhão, ela se espalhava e atingia as grandes massas. E começou então...  Houve um racha dentro da bossa nova, Carlinhos Lyra, a Nara, eles se aproximaram dos compositores do morro, os compositores populares eram o  Zé Keti, Luis Carlos Salgueiro, toda aquela turma do Rio de Janeiro e começaram a criar aquilo que depois começou a se chamar de MPB e que foi desencadear nos festivais e tal e que eram uma coisa mais flamante que a  bossa nova, mais comunicativa, com grande público e que usou a televisão que era o grande instrumento de divulgação para mandar essa mensagem. E o Vandré reinou nesse período como um dos autores... Porque aí, isso tudo faz parte do movimento criado pelo Centro Popular de Cultura, que era no Rio de Janeiro, o CPC, lá no Rio e aqui em São Paulo. Aqui era o Chico de Assis que era o teatrólogo, passou também a fazer música, e música nessa linha. Eu mesmo fui um dos primeiros a fazer música de protesto, o Geraldo Vandré com o Geraldo Cunha. Em 61 fiz um samba, fizemos alguns, mas um deles acabou tendo relativo sucesso, principalmente lá no Rio de Janeiro, era “eu não sou do morro” (eu não sou do morro não, mas é que o morro é de corpo, alma e coração....)

Jeane – Você chegou a gravar?

Alberto Helena - Foi gravado pelo Taiguara, pelo Geraldo Cunha e por um outro cantor que tinha aqui em São Paulo, Hugo não sei o que lá, eu não me lembro o nome... No Rio ela tocou bastante com a gravação do Taiguara. Bom, mas aí, então foi essa febre, da música de protesto, todo mundo entrando, todo mundo não, mas o grupo, principalmente o Vandré, ele era a grande marca...

Jeane – O Chico Buarque também?

Alberto Helena – O Chico, ele na verdade ele fazia mais crônica social do que música de protesto. Ele foi fazer mais música de protesto depois do golpe militar, depois do AI-5, foi em 68, o golpe foi em 64, a partir de 68 foi quando ele começou a fazer, inclusive com aquele pseudônimo Julinho de Athaíde, e o Chico partiu pra essa... Inclusive em 67, 68 a discussão que havia entre o grupo do Gilberto Gil, o grupo dos baianos, Gil, Caetano, e o a turma do Chico é que o grupo dos baianos acusava o Chico de não ser crítico suficiente nas músicas, que ele era muito romântico, era muito lírico, vamos dizer, pra época, mas depois o Chico foi muito mais incisivo e tudo mais. Mesmo porque o Chico, de todos eles, era o que tinha melhor preparo cultural, intelectual, acadêmico, por conta até do pai dele que era um grande pensador... Mas enfim, então nessa virada o Vandré que era um cantor de música romântica passa a ser um militante da música.

Jeane-  O que hoje ele nega não é? Ele diz que a intenção dele nunca foi política.

Alberto Helena – É... Bom... A gente não pode entrar na cabeça dos outros... Mas, não era o discurso dele na época, porque foi esse o período que a gente conviveu muito. Mas ele tinha bom... Ele tinha pretensões que, vamos dizer assim, ultrapassavam a simples mensagem política revolucionária. Ele tinha uma preocupação de ordem estética cultural que a maioria dos que faziam este tipo de música não tinha, Carlinhos Lyra, o Sérgio Ricardo que era outro desse movimento. Ele queira algo mais, isso era patente. E quando ele fez “Disparada” foi realmente uma coisa... Eu acho que foi a música que o cara atingiu a perfeição, de acordo com os objetivos dele. Eu nunca me esqueço da noite que ele cantou pela primeira vez pra nós. Porque era assim: isso foi em 66, o Festival da Record, que foi o festival da Banda, Disparada, o festival que lançou o Paulinho da Viola, Gilberto Gil, Caetano... Então ali, por exemplo, ele não era compositor no sentido comum, porque ele não era... Tocava violão mal e tal, mas não o cara de pegar e... Tanto é que quem fazia todos os arranjos era o Hilton Acioli que era o parceiro dele, que na verdade traduzia em música o que ele estava querendo fazer. Mas ele tinha a genialidade, ele era um gênio nesse negócio. A música é dele, não era do Hilton Acioli, você entende? O Hilton Acioli deu o formato, você entende? A música nasceu dele, assim como a letra era só dele. E nessa época, o festival era o seguinte: tinha que ser música inédita pra ser aceita. E tanto é, que todos eles, cada um estava fazendo a sua música e era segredo, cada um mantinha segredo...

Jeane – Só se sabia quem era o compositor quando saía o vencedor?

Alberto Helena – Não, o que não se sabia... Era assim: não se divulgava a música antes dela ser apresentada pela primeira vez no festival. Então não podia ser gravada, não podia ser cantada em lugar nenhum e tal. Mas na verdade se conhecia os compositores porque eles eram apresentados quando a música era apresentada.

Jeane – Os compositores só eram revelados quando era escolhida a música vencedora?

Alberto Helena – Não.  Esse, de 66, como foi o de 65, como foi o de 67 e 68 era assim. Inclusive o de 66 eu fiz parte da produção do festival. A direção era do Solano Ribeiro e eu era o produtor. Fazia os textos, e toda a fase de escolha das músicas foi feita na casa da minha mãe. Meus pais tinham uma escola ali na Avenida Brasil, onde tem hoje o laboratório Fleury, é um casarão grande que tinha lá, e na parte debaixo era a escola, escolinha maternal e pré-maternal e tinha um barracão lá no fundo, onde as crianças faziam judô, tocavam música e tal. Tinha piano, instrumentos musicais e a gente... Toda fase de escolha... Qualquer um podia se inscrever... Qualquer pessoa ... Então a escolha, tudo foi feito lá. Eu tenho até a foto... O Cesinha (César Camargo Mariano) no piano e as partituras que os caras mandavam, começava e tal.. O júri ali presente... Essa pode jogar fora, não, essa não... E assim foi feita a escolha. Mas a gente não conhecia quais as músicas que os caras iriam apresentar.

Jeane – Sabia quem era o compositor, mas não sabia qual era a música, é isso?

Alberto Helena – Exatamente! Porque esses caras já tinham sido escolhidos de antemão né, eram profissionais e tal, que iriam apresentar as músicas para serem aprovadas. Aí, uma noite... e a gente queria saber...  O Chico até a gente conhecia “A Banda”. O Vandré fazia mistério com a música dele... No fim ele sentou num carrinho dele, um fusquinha que ele tinha, na frente do Juão Sebastião Bar, ele parou o carro... Estava eu, Solano e acho que o Luiz Vergueiro,  e ele cantou no carro a música “Disparada”. Aquilo foi...

Jeane – Se não me engano o Zuza no livro A Era dos Festivais, relata esse episódio.

Alberto Helena – É eu contei isso pra ele.

Jeane – Ele chama todos vocês para ouvirem a música, não é isso?

Alberto Helena – Não, não chama... A gente saia toda noite juntos tal, nós vivíamos na noite, boemia direta. E estava sempre juntos, e aquela noite nós estávamos todos juntos e não sei pra onde que a gente ia... E ele cantou, e foi um arrepio geral! Foi uma coisa! Não dá, quando uma coisa é nova, ela é nova quando é nova, depois que todos os elementos que ela apresentou de novidade já foram reincorporada no tempo e várias outras, por exemplo, a sua geração não vai ter o mesmo impacto, aquilo já tá diluído em outras, então você já não tem a mesma noção, mas aquilo foi porque ele conseguiu fazer o seguinte: o que é a música mais popular, mais até do que o samba? É a música sertaneja, porque ela está presente no nordeste, no centro-oeste, no Rio Grande do Sul, em São Paulo, Minas, no Rio, interior do Rio... Essa é a mais abrangente. Das músicas nacionais a mais abrangente é a sertaneja, é a do sertão, que tem lá cada uma sua característica. Ele conseguiu pegar isso, e que era a música que menos tinha sido trabalhada urbanamente, quer dizer, ela permaneceu até aquela época, depois é que veio essa coisa do sertanejo, eles falavam que era música sertaneja naquele tempo, agora é música caipira. E que deram esse tom mais urbano, porém brega. Ele não, o que ele queria... Porque a música caipira naquela época era encarada como brega, porque ela era muito primária, tirando João Pacífico, Menino da Porteira, essas coisas todas, a grande maioria era coisa pobre. Ele pegou o espírito de Guimarães Rosa e trabalhou essa linguagem, pegou Guimarães Rosa e com a música sertaneja, o ritmo e a melodia típica, ele juntou os dois e conseguiu um efeito extraordinário. Lembra aquela seleção holandesa de 74 que o carrossel holandês foi um fenômeno tático no futebol que nunca mais se reproduziu, só aconteceu naquele período. O “Disparada” nunca mais se reproduziu, ele não fez uma escola, ele ficou suspenso no ar como uma obra única. Poderia ser um caminho, mas que ninguém alcançou. Depois tentaram, Almir Sater chega um pouco perto, tem uns caras que...  Mas o “Disparada” ficou sozinho. E mais, por que aí ele junta o Trio Marayá pra fazer o vocal de apoio e mais o Quarteto Novo que era outra coisa que foi ele quem criou, com músicos extraordinários, talvez os melhores que o Brasil já tenha produzido, cada um com seu instrumento. Com um som inteiramente novo, inclusive com uma queixada de burro que o Airto Moreira, isso foi idéia do Airto Moreira mesmo, que usou, e que tinha um efeito não só musical importante como visual, uma coisa absolutamente nova. E o Quarteto Novo era um time de craques, tinha o Hermeto Paschoal que era um gênio, o Heraldo Monte, o Théo de Barros, que era um excelente violinista, enfim, um som inteiramente diferente, uma coisa nova, sensacional, tão sensacional que pela primeira vez e única na história do Brasil, neste país, o cidadão comum discutia estética cultural, discutia cultura nos botequins, nas padarias, na porta de jornal, porque, o Brasil se dividiu entre Banda e Disparada. E os argumentos que você ouvia, eram argumentos de especialistas do povo: “mas, a Banda é mais brasileira, é mais romântica, é mais o nosso povo, é uma volta às marchinhas de antigamente...”  O outro dizia: “mas, Disparada é uma criação nova, é um avanço...” quer dizer, o povo discutindo cultura... Nunca houve isso antes, nunca houve depois. Pra ver a força desse negócio! Criou-se a turma dos Bandistas e a turma dos Disparadas, era torcida como Corinthians e Palmeiras, Flamengo e Vasco, essas coisas... E quando terminou a votação deu Banda. Banda em primeiro e Disparada em segundo. O Paulinho de Carvalho que era o dono da emissora, ele ficou “pô, os caras vão quebrar o teatro, não é justo pô” Porque ele também estava envolvido naquilo, torcendo, e olha, ele não gostava do Vandré como pessoa, ninguém gostava do Vandré como pessoa, só o Faro (Fernando Faro). Aí o Paulinho: “eu acho que tem que dividir esse prêmio”. Chamou o Júri, o júri foi reunido e o Chico Buarque foi o primeiro a dizer “não, eu não acho justo, Disparada não pode ficar em segundo lugar”, e aí foi resolvido dividir o prêmio, primeiro lugar para os dois.

domingo, 1 de maio de 2011

A primeira Entrevista

A primeira entrevista que realizei para o livro foi uma indicação do próprio Vandré. Eu já havia feito os primeiros contatos com ele quando em uma tarde ele me telefonou e disse: "Jeane, tem uma pessoa que pode ajudar muito no seu trabalho, ele conhece toda minha vida, vai saber falar de mim melhor do que qualquer outra pessoa. É o Alberto Helena Junior, eu não tenho o telefone dele e também não sei por onde ele anda, mas,você é uma menina esperta, vai conseguir encontrá-lo".   Fiquei surpresa com o seu gesto , quem diria, o próprio Vandré indicando fontes que me ajudariam a reconstruir a sua história. Quando desliguei o telefone a primeira coisa que fiz foi jogar o nome do Alberto Helena no google, e foi mais fácil do que imaginei. Lá estava o email dele para quem quisesse ver. Entrei em contato e o retorno foi imediato. Agendamos a entrevista e, diga-se de passagem, foi uma das mais longas e produtivas que eu realizei. Ficamos horas conversando sobre o Vandré, os festivais, a ditadura e tudo que compunha o cenário da época. É muito enriquecedor ouvir pessoas que foram testemunhas oculares da história. Uma coisa é você conhecer a história contada nos livros, e outra é vivenciá-la, ser parte integrante dessa história,  um personagem que presenciou  fatos reais, concretos, sem “cortes”, e sentiu na pele todos os acontecimentos da época.
Costumo dizer que nasci na época errada, pois, adoraria ter vivido esse período da história do nosso País, período que considero o mais rico em todos os aspectos, pois foi na década de 60 que ocorreram as maiores transformações políticas, culturais e comportamentais, época de grandes  acontecimentos que marcaram o século XX.  
       O ano de 1968 é o que melhor representa essa década. Vejamos por que:

Fatos marcantes de 1968 no Brasil e no mundo*

Antes de Maio
 
16 de janeiro - Estréia no Rio a peça "Roda Viva", de Chico Buarque de Holanda, dirigida por José Celso Martinez Corrêa

17 de janeiro - O cantor Roberto Carlos apresenta a última edição do programa "Jovem Guarda", no Teatro Record, em São Paulo

30 de janeiro - O Exército vietcong inicia a chamada Ofensiva de Tet, invadindo 34 capitais de Província vietnamitas e a cidade de Hue

15 de março - São desapropriados, em Cuba, os últimos estabelecimentos privados --bares, livrarias e oficinas

16 de março - Militares norte-americanos massacram cerca de 150 civis vietnamitas na aldeia de My Lai, no Vietnã

28 de março - O governo da África do Sul apresenta três leis que culminam no apartheid

4 de abril - É assassinado a tiros, aos 39 anos, o pastor negro Martin Luther King. No dia seguinte, ocorrem conflitos raciais em 125 cidades, e a morte de 46 pessoas em Washington.

5 de abril - É lançado, na Tchecoslováquia, o programa de reformas políticas que ficou conhecido como Primavera de Praga

10 de abril - Caetano Veloso participa da "Noite da Banana" no "Programa do Chacrinha" (Rede Globo)

17 de abril - 68 municípios são considerados área de segurança nacional. Com isso, ficaram suspensas, nessas cidades, as eleições municipais de novembro

28 de abril - Cerca de 60 mil manifestantes protestam, no Central Park, em Nova York, exigindo o fim da Guerra do Vietnã (1959-1975)

30 de abril - Estréia na Broadway o musical "Hair"

Depois de Maio

5 de junho - É assassinado, aos 42 anos, o senador e candidato à Presidência dos EUA Robert Kennedy

16 de junho - A polícia francesa retoma à Sorbonne, até então ocupada pelos estudantes

26 de junho - É realizada, no Rio de Janeiro, a "Passeata dos Cem Mil", reunindo principalmente estudantes, intelectuais, artistas, padres e mães, autorizada pelo governo federal.

18 de julho - Integrantes da peça "Roda Viva" são agredidos no teatro Ruth Escobar, em São Paulo. A ação foi atribuída a integrantes do CCC (Comando de Caça aos Comunistas)

12 de agosto - É lançado, com um show em São Paulo, o disco-manifesto "Tropicália ou Panis et Circensis", de Caetano Veloso e Gilberto Gil, com convidados

21 de agosto - A Tchecoslováquia é invadida por tropas do Pacto de Varsóvia, em represália à "Primavera de Praga"

24 de agosto - A França explode, no oceano Pacífico, a sua primeira bomba de hidrogênio

3 de setembro - O deputado federal Márcio Moreira Alves, do MDB (atual PMDB), discursa contra as Forças Armadas na Câmara dos Deputados, em Brasília

2 de outubro - Confronto entre estudantes da Universidade Mackenzie e da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da USP, em São Paulo, mata o estudante José Guimarães

10 de outubro - A Assembléia Nacional da França realiza reformas no sistema educacional do país

12 de outubro - Cerca de 1.200 estudantes são presos em Ibiúna (São Paulo), quando realizavam clandestinamente o 30º Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes)

5 de novembro - O republicano Richard Nixon (1969-1974) é eleito presidente dos EUA

21 de novembro - O presidente Costa e Silva aprova a lei de censura de obras de teatro e cinema. É criado também o Conselho Superior de Censura

22 de novembro - Chega às lojas, nos EUA, o "Álbum Branco" dos Beatles.

13 de dezembro - Entra em vigor o AI-5 (Ato Institucional nº 5), que suprime as liberdades democráticas no Brasil. Com o AI-5, o Congresso Nacional é colocado em recesso e vários parlamentares têm seus mandatos cassados.

     Tenho um verdadeiro fascínio por esse período da historia do Brasil, quando leio a respeito é como se me transportasse para a época, por isso, não me canso de ler e escrever sobre o assunto, é a forma que encontrei de “vivenciar” esses acontecimentos e sobretudo, de compreender o Brasil de hoje.

     Mas, voltemos a entrevista. No próximo post disponibilizarei parte da entrevista que realizei com o Jornalista Alberto Helena Junior. Digo parte porque ela é muito extensa, então para a leitura não se tornar cansativa, a dividirei em 3 posts.

Espero vocês.

*Fonte: http://www1.folha.uol.com.br

sábado, 16 de abril de 2011

Entrevista com Sergio Ricardo (Cantor, Compositor e Cineasta)





Jeane Vidal – Como era a sua relação com Geraldo Vandré?


Sérgio Ricardo - Eu já conhecia o Geraldo antes (1967) muito antes de Disparada. Ele trabalhava comigo, a gente fazia o mesmo programa de rádio do Valdemar Henrique, um compositor famoso do passado... O Valdemar Henrique tinha um programa de rádio e ele fazia questão de apresentar os novos, na época. E os novos eram Luizinho Eça, Lincoln, que acabou virando pianista de grupo e tal , eu o Vandré e mais algumas pessoas. O ano disso devia ser 50 e tantos, 58, 59.... antes da Bossa Nova, antes de tudo isso...Foi bem no comecinho, a gente era garoto... eu nasci em 32... em 58 eu tinha 16, 17 anos, não então não é 58, foi 59, 60...


JV – Oficialmente ele começou cantar mesmo em 1960, quando gravou o 1° LP...


SR - Então, antes disso um pouco, devia ser o ano anterior ele tinha feito esse trabalho... Bom e a partir daí a gente ficou assim... mas não era bem amigo, a gente nunca foi íntimo, entendeu? Mas a gente se conhecia, a gente se respeitava, fazia cada qual o seu trabalho. Eu era pianista e cantava, já tava cantando, aí comecei a gravar, eu comecei a gravar primeiro que ele, mas, não foi ainda com a bossa nova. Ele gravou que disco primeiro?


JV – O título era Geraldo Vandré e ele gravou aquela música “Fica mal com Deus.” Foi a música que foi lançada nesse disco...


SR – Fica mal com Deus quem não sabe amar... eu gravei essa música no meu...


JV – a gravadora era a Áudio-Fidelity..


SR – Que fez a gravação dele?


JV – Isso, que fez a gravação dele...


SR – Exatamente, é provável... e eu sei que na época a gente começou a se separar, porque esse programa guilhotinava um pouco esse grupo, mas depois cada um foi pro seu lado. Esse Luizinho Eça virou um sucesso, ficou como pianista de boate e tal, acompanhava os grandes cantores e tal... Eu partir para fazer um outro trabalho como compositor. E o Vandré cantava aqui e ali e tal... E eu só vim saber dele depois, muito mais tarde, com a Disparada.


JV – Mas vocês fizeram alguns projetos no cinema juntos, não foi?


SR - que eu me lembre... é bom você me lembrar isso, porque eu não me lembro....


JV – Na época foi lançado o filme “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, a peça “Calabouço”.... E ele fez a trilha sonora de alguns filmes do Roberto Santos.


SR – É, ele fazia de uns filmes e eu fazia de outros. Eu comecei fazendo do “Deus e o Diabo na Terra do Sol” logo em seguida ele fez pra o Matraga.


JV – Não eram juntos então? Eram projetos separados?


SR – cada qual tinha um trabalho separado do outro, mas tínhamos uma identificação pela coisa do CPC, eu não sei nem se ele fez parte do CPC em algum lugar...


JV – Teve uma época sim, que ele fez parte, inclusive é citado o nome de vocês dois no CPC...


SR – No Rio?


JV – Não, aqui em São Paulo.


SR – então já foi depois do CPC do Rio...


JV – Só que ele não permaneceu muito tempo porque ficou irritado, achava muito panfletário e acabou saindo.


SR – É verdade. Eu também. Ele teve o mesmo problema que eu. E aí cada qual saia fazendo suas coisas com muita semelhança, né? Com muita, muita... era uma coisa meio paralela...


JV – Vocês tinham uma afinidade?


SR – é, tinha uma afinidade por causa da posição política de cada um, e acabamos juntos em várias coisas. Em Sofia, na Bulgária. Eu fui convidado oficialmente pelo comitê daqui que tava decidindo quem ia e quem não ia. E ele, ele conseguiu uma permissão pra ir também ao festival de juventude. Foi por conta própria, era isso que eu queria dizer. Parece que foi por conta própria não foi um convite especial. E lá nós nos encontramos ali, então a gente já recomeçou uma relação, inclusive eu queria usar o grupo que ele tinha levado, que era o Trio Marayá e ele não me permitiu usar o Trio porque eles já estavam um pouco meio confusos.


JV – Eles brigaram pouco tempo depois.


SR – É porque o Trio Marayá queria me acompanhar na música que eu fiz pro Guevara...


JV – Você e o Vandré fizeram suas músicas com o mesmo tema, não é? As duas tinham o mesmo título “Che Guevara” não era isso?


SR – Pois é, eu não me lembro bem da música dele, sinceramente...


JV – A música dele chamava-se “Che”. Eu li uma entrevista dele da época - quando ele voltou desse festival - nela ele comenta que vocês eram os únicos brasileiros que estavam lá e que suas músicas tinham o mesmo tema.


SR – Eu sei que não houve premiação propriamente. Andaram dizendo aí que eu tinha ganhado prêmio de letra e ele tinha ganhado prêmio de... Parece que ele ganhou sim prêmio de intérprete, o melhor intérprete.


JV - Ele veio sim com um troféu, pelo menos é o que diz os jornais da época.


SR – Me atribuíram um prêmio lá de.. Mas, não tinha prêmio, eu fui considerado a melhor letra, mas, não tinha prêmio de melhor letra. Mas enfim... E ali a gente fez uma relação também que não foi muito positiva porque a gente acabou se desentendendo um pouco, porque ele já estava um pouco irracional com as coisas, um pouco nervoso e... Ficou um pouco alijado, digamos, da delegação. Mas fez uma apresentação bela, fez uma coisa bonita, ele e o Trio Marayá fizeram uma coisa muito bonita. Na volta a gente se reencontrou aqui, eu não sei se foi antes disso ou depois disso, já teria passado a Bossa Nova, a Bossa Nova já tinha até acabado com o seu auge e eu já estava na música de protesto com ele. Os dois na verdade, os mais fortes nessa linha de trabalho. Ele de um lado e eu de outro, e uma vez fizemos um show juntos, isso eu não sei se você sabe. No Cave, na boate Cave.


JV – Essa boate era aonde, aqui em São Paulo?


SR – Aqui em São Paulo. Uma boate até que ocorreu uma coisa muito curiosa que eu tinha vindo recentemente da Europa, isso foi depois de 64, foi perto do festival, foi depois do festival da “Banda” e a Disparada, isso. Eu tinha voltado da Europa e íamos fazer, o Chico de Assis parece aqui, que produziu um show pra gente fazer no Cave, tinha até Hermeto Paschoal no meio da história e tudo. Nessa ocasião durante os ensaios eu pedi a ele o carro emprestado pra ir buscar a minha mulher no aeroporto que tinha acabado de chegar do Rio. Ele me emprestou o carro e na volta o guarda me parou pra ver esse negócio de documento, essas coisas e acabou rebocando o carro. Aí quando eu disse a ele: olha rapaz aconteceu uma coisa, e falei pra ele e ele disse: mas que malandro é você Sérgio, porque não deu uma grana pro guarda? Aí eu fiquei... eu não sabia onde enfiar a cara. Porque eu na verdade estava na Itália e lá se você tentar subornar um guarda você é preso. Eu nem pensei nisso, tirei isso da minha cabeça. Quando eu voltei pintou esse problema e eu em vez de oferecer um dinheiro pro guarda, fiquei discutindo com o guarda, tentando convencer o cara e o cara esperando que eu oferecesse dinheiro né, Como eu não ofereci, ele disse: é meu filho o carro vai ser que rebocado. Aí poxa vida, se não fosse o pai do Vandré que tinha lá não sei que tipo de relação tinha com o poder, aí então conseguiu tirar o carro dele. Mas essa foi a coisa curiosa. Nós fizemos um show juntos, essa foi talvez a única vez que a gente se apresentou fazendo uma coisa juntos. O da Bulgária era um festival cada qual fazia sua música. Nesse mesmo ano acabamos fazendo o festival lá da Record, o festival do “Beto bom de Bola” que eles chamam. Aí ele fez uma música sobre chofer de caminhão...


JV – “Ventania”...


SR – Uma música bonita. Mas acho que não chegou a classificação final...


JV – Não.


SR – Como eu também. Ficamos de fora desse festival.

Eu acho que o Vandré tem uma importância pra mim muito grande. Ele era uma referência no sentido de saber que eu não estava sozinho fazendo o tipo de trabalho que eu fazia na época... nos anos 60. De um lado eu fazendo meu trabalho e ele fazendo do outro lado, dali a pouco aparece o Gonzaguinha, Trio Marayá, Trio não sei o quê, o Quarteto Novo e tal, a Marília Medalha, a própria Nara começou a cantar música de protesto enfim que é aquele pessoal que fazia... E ele e eu éramos as pessoas que tínhamos iniciado praticamente esse movimento dentro da música popular e, volta e meia, nos encontrávamos em portas de fábricas, em shows de estudantes, é.. Isso nós fizemos muito, coincidia nossa presença em vários desses lugares, embora não tivéssemos uma participação é vamos dizer assim de patota, nós nunca fizemos uma patota de ser ele e eu fazendo a mesma coisa. Não, cada um fazia o que vinha a cabeça, mas, ambos com uma identificação do trabalho do outro. E éramos chamados pelos estudantes, pelos trabalhadores, pelos camponeses e tal, nos trabalhos que eles faziam. A própria classe média tinha muitas instituições, sindicatos, eu me lembro de ter ido até Brasília pra um sindicato dos alfaiates, uma coisa estranhíssima... Chamavam-me pra ir nessas coisas e geralmente eram shows assim, quase que gratuitos. Alguns mesmo a gente não recebia nada, era pura contribuição mesmo, ideológica né. E fora disso eu gravei uma música dele que é “Fica mal com Deus” e... Ele cantava uma musica minha que eu não me lembro mais qual é, acho que é “o nosso olhar” uma coisa assim. A gente se respeitava muito e nosso trabalho se coincidiam muito, a gente estava nos mesmos festivais, nas mesmas confusões aí com o Dops com essas coisas. Eu não sei nem se ele teria sido chamado pra dar alguma declaração no Dops.


JV – O que eu li é que foi publicado em jornal, que o Coronel Òtavio Costa pedia a prisão dele.


SR – mas isso depois...


JV – depois de “Caminhando”.


SR – depois de Caminhando a barra pesou pra ele. Eu acho que se ele desse muita sopa pelo Brasil ele acabaria ou preso ou exterminado.


JV – Você chegou a ser chamado pelo Dops?


SR - Várias vezes.


JV – Mas você nunca saiu do País?


SR – não, eu quando saí, saí por conta própria. Eu me auto exilava às vezes. Logo depois do golpe eu fui pra Europa e só voltei pra esse festival de 67. Pensando que já estivesse acabado. Imagina você, que ingenuidade pensar que dois anos ou três anos...


JV – Estava só começando...


SR – No ano seguinte a minha volta pintou o AI-5 e aí foi pior. Segundo o Thiago de Melo eu fui mais sacrificado de todos, porque o pessoal saiu... Porque você se exilar é ótimo, porque, você entra pra um país e tem todo um campo pra trabalho. No meu caso não, desde a ditadura que eu venho comendo o pão que o diabo amassou né. Porque trabalhar no seu próprio país estando contra o regime é uma coisa complicada. Então minha situação foi que eu conseguia sobreviver com os shows de estudantes de norte a sul do país pelas universidades que me chamavam. O Vandré não, porque ele saiu andou fazendo as suas... Na Europa...


JV – Ele ficou 4 anos e meio exilado. Ele foi para o Chile, depois foi para a Europa...


SR – Mas fez coisas não é? Ganhou Festivais lá fora, parece, ou ganhou ou participou de festivais...


JV – Eu não me lembro, vou verificar... (Em 1972, ganhou no Peru um festival com a música “Pátria Amada, Idolatrada, Salve, Salve”, parceria com Manduka , filho do poeta Thiago de Mello)


SR – é bom verificar, porque isso aí eu soube, eu recebi essa informação, eu achei tão gostoso isso, fiquei oh que bom que ele tenha ganhado, tava preocupado, tinha saído notícias... Bom mais enfim posso estar enganado também. Pode ter sido um boato e não ter sido verdade. Mas andou fazendo coisas que foram respeitadas lá fora. Sei também de coisas que não agradaram em alguns países.


JV – Teve uma época que ele precisou sair do Chile porque estava se apresentando em programas de TV sem licença de músico e parece que lá é necessário uma licença para se apresentar, e ele não tinha. Foi quando ele foi pra Europa.


SR – Pois é. Essa é a minha contribuição pra tua matéria.


JV – Mas vocês também fizeram um programa juntos na TV Excelsior não foi? O “ensaio geral”?


SR – a gente se apresentava, mas não era junto, cada qual fazia o seu trabalho. Mas nos cruzávamos em várias coisas. No ensaio geral... Eu nunca fui ao Fino da Bossa, não sei se ele chegou a ir. Porque eu tinha, sem saber, tinha um sujeito que me detestava no fino da Bossa, e eu ficava achando que era a Elis Regina que tinha alguma coisa contra mim e não era. Era esse cara que não programava... E ela deve ter pensado que eu esnobava o programa. Ficou essa coisa, só mais tarde é que a gente veio a se falar e virar amigos e tal. Mas nesse mundo aí, nesse Show Busness tem muita confusão, muito mal entendido, muita injustiça.


JV – No Livro “ A Era dos Festivais” do Zuza (Homem de Mello), ele comenta que naquele episódio do festival do “Beto bom de bola” que a Elis e o Vandré foram os primeiros que solidarizaram com você, é verdade?


SR – Exatamente. A Elis foi a primeira a me dar um abraço. Acabei de escrever isso pra uma matéria no Globo que vai saí ainda. Ta fazendo agora 40 anos daquele festival e parece que eles vão fazer aí matérias. Pois é, nós fazíamos isso, estávamos em todas as coisas. Tinha reuniões, por exemplo, de estudantes, de Assembléias, de intelectuais que ele participava e eu também, e a gente estava sempre juntos nessas coisas. Nessas horas foi bonita a nossa relação, e ela continua sendo bonita até hoje, porque o dia que eu encontro com ele, a gente se abraça e... Porque a gente só se encontrava na hora da pesada, mas quando tinha aquela coisa pesada a gente tava junto, a gente se encontrava... Eram passeatas e coisas assim dessa natureza. Reivindicações de estudantes... Eu não sei se ele participava tanto quanto eu porque ele tinha suas indiosincrasias com algumas coisas e eu não tinha nada não, meu problema não era partido era a causa né, então os partidos me chamavam muito pra se filiar mas eu não quis me filiar a nenhum, como ele também não deve ter se filiado a nenhum também. E talvez aquela declaração dele tenha sido mal interpretada porque eu também não quis saber de partido nenhum só bem mais tarde é que eu virei sócio do PT. Mas, porque achava que finalmente houvesse aparecido um partido que viesse a condizer com a nossa luta. Mas... E acho que ele também.. Ou não, né? Não sei... Acho que ele nunca entrou pro PT.


JV – Eu fiz uma entrevista com ele recentemente. Nessa entrevista eu questiono em relação aquela declaração que ele deu à Rede Globo, e ele diz que na verdade houve uma montagem..


SR – Não é de se duvidar. Agora eu não entendo porque ele não canta. Porque não tem que vingar do brasileiro, porque não é por aí, eu acho que isso ta mesmo no desvio.


JV – Quando ele estava no Chile os pais dele foram buscá-lo porque ele estava sofrendo de depressão, foi quando então eles negociaram a volta dele para o Brasil. Ele estava tendo crises fortes e aí quando ele voltou e aconteceu tudo aquilo, ele não quis mais cantar no Brasil. Ele acha que o povo fez dele uma vítima do regime, quando não era nada daquilo. De todos os artistas que foram para o exílio ele foi o único que ao retornar não retomou sua carreira artística. Os outros continuam aí, Chico Buarque, Caetano...


SR – Agora ele, no fundo no fundo ele tem certa razão, porque a gente ficou meio estigmatizado, eu e ele, porque é o seguinte: porque o grande problema é que quando pintou a ditadura e que veio uma nova... Os festivais revelaram os artistas, nós já éramos os artistas que fazíamos a coisa de protesto, a coisa política... E os outros que vieram começaram também a querer fazer, entrar na nossa, não porque queriam entrar na nossa coisa, mas queriam fazer aquilo que a gente estava fazendo, que era uma música de contribuição, de reivindicação.


JV – E até porque era o que chamava o público não é?


SR – Exatamente. Então, logo que veio o AI-5, eles começaram a se organizar de forma empresarial esses artistas e continuaram... Não é nada condenatório isso, não estou falando isso como uma coisa de condenar, é que eu o Vandré e alguns outros, o Théo de Barros, o próprio Hermeto Paschoal e outras pessoas que estavam na nossa leva, ficaram inteiramente marginalizados porque nós continuamos a ser aqueles românticos, entendeu? Essa é a grande diferença que fez com que a gente virasse dinossauros, entendeu? E os novos permanecem até hoje, você vê que é Chico Buarque, que é Caetano Veloso, Gilberto Gil, não sei o quê... O Chico manteve uma bandeira, segurou a bandeira. Os outros partiram para Tropicálias, partiram pra coisas e tal, meio nebulosas em termos ideológicos e na verdade a coisa ficou mais na mão do Chico. E eu fazendo as coisas como o Chico fazia também, de protesto não sei o quê, continuei fazendo, mas só que eu não estava embandeirado naquelas organizações de... a coisa empresarial eu num... Como o Vandré teria sido também. Eu e ele sempre fomos meio a palavra certa é meio “porra-loucas”, no sentido de organização da própria carreira. Conclusão: viramos dinossauros. Se ele tivesse insistido teria ficado na minha posição, ou seja, no ostracismo. Primeiro teria feito um sucesso numa reaparição, mas, logo em seguida teria sido esmagado. Teria difícil pra ele fazer, chegar a fazer um espetáculo, seria difícil, ele iria encontrar muita resistência. Então... Mas isso talvez nem tenha passado pela cabeça dele, ao contrário, ele poderia até achar individualmente que se voltasse a fazer ia ser um sucesso extraordinário. Seria, num primeiro momento, mas se ele não viesse a se organizar como os outros empresarialmente, que eu acho que dificilmente ele aceitaria... Rebelde como eu também... então ele acabaria como eu estou, numa situação que luto, luto, luto...e não acontece. Entendeu? E não sou superado, porque se fosse uma questão de ter ficado datado o meu trabalho e ter ficado uma coisa... Não, eu tô fazendo coisas que... Chico Buarque outro dia esteve em minha casa querendo música pra botar letra. Entendeu? Chegou lá achou uma música maravilhosa, levou, ele achou maravilhosa, levou a música pra fazer letra, quer dizer: não estamos superados, porque o que veio depois da gente em termos de músicas, não nos colocou como pessoas superadas, como artistas superados.


JV – O interesse comercial hoje prevalece, não é?


SR – Prevalece. E cada vez vai piorando, no sentido de qualidade. A ponto de vender o que anda por aí. É uma bagunça, a música virou um objeto descartável insuportável. De alguma maneira com um sucesso lá em cima. Mas, enfim, talvez até tenha-se poupado, sem querer ele poupou a vida dele, por uma determinação de um sofrimento que ele viria a ter...


JV – Eu perguntei a ele em que momento ele decidiu que não cantaria mais no Brasil e por que. Ele disse que em nenhum momento ele decidiu que não cantaria mais no Brasil, que ele continua fazendo música, mas, não comercialmente, e que ele não tem interesse em gravar comercialmente, esse não é o seu objetivo.


SR - Então, então nesse caso... Mas ele teria que ter um objetivo qualquer de fazer pelo menos algo para o sustento dele...


JV – Ele era fiscal da Sunab, se aposentou como fiscal da Sunab e deve ter a aposentadoria dele. Acredito que ele também receba direitos autorais.


SR – muito pouco se comparar com as minhas... é uma coisa muito... Bom, ele deve ser protegido de alguma forma ou de outra, deve ter alguma forma que faz com que ele tenha o do sustento pelo menos. Eu, nem isso tenho, mas, tenho que me virar... Agora eu acho uma pena que ele não esteja na parada. O que acontece é o seguinte, é que a gente tendo sido calado pela censura, proibidos de tocar no rádio, porque a nossa música foi proibida de tocar no rádio, tanto a minha com a dele... Jogaram pra cima da gente um destino muito trágico de um esquecimento.


JV – A revolta do Vandré é que ele acha que foi condenado pela própria sociedade.


SR – Não é bem isso, ele tá errado nisso, a sociedade reclama pela volta dele, mas é que a voz do povo não tem vez, quer dizer, você não ouve a voz do povo, você entrega pro provo a voz que ele tem que repetir. Então, e o povo, o nosso povo realmente ele é, ele é... a palavra certa.. é...submisso. Ele é submisso por natureza, e recebe as informações e as repete.


JV – Como verdade.


SR – Como verdade... Então ele passa a repetiu as verdades que lhe impõem a mídia, o sistema. Mas tem suas preferências. O povo gosta do Vandré, como gosta do meu trabalho, mas é difícil eles receberem porque eles não têm como receber esse trabalho, então eles consomem outras coisas. Eu acho que traído pela sociedade é um pouco exagerado da parte dele. Porque o que aconteceu é que a música brasileira vinha da Bossa Nova para a música de protesto como a gente chamava, como eles chamavam a música política, a música engajada, e depois partiu pra... Como foi proibida, surgiu a Tropicália. Mas os historiadores, os críticos e tal, eles pulam esse pedaço, eles saem da Bossa Nova para tropicália como movimento, mas na verdade o grande movimento foi o nosso, foi o verdadeiro movimento, porque era uma coisa que vinha de baixo pra cima. Isso é uma coisa ruim, entendeu? Porque a gente foi colocado à margem, não só pelo próprio sistema, que era o objetivo do sistema era nos colocar à margem, mas como a sociedade no sentido da crítica, no sentido do reconhecimento histórico, dessa coisa, não na memória do povo, porque o povo tem memória do nosso trabalho até hoje, inclusive. Eu saio nas ruas e as pessoas me conhecem ainda, o Vandré sai às ruas e todo mundo diz: lá vai o Vandré, poxa que bom se ele pudesse ter mais... Se o Vandré estivesse, eu não sei se ele está, mas eu estou ligado nas coisas do computador, por exemplo, e recebo e-mails...


JV – Ele não... Ele não quer saber.


SR – Ele não deve gostar disso. Pois é, eu recebo e-mails com uma reclamação incrível da minha ausência nessa história, e muita gente perguntando sobre o Vandré, mas, não há resposta pra isso. Mas a análise não é bem a do esquecimento da sociedade, não é bem isso. É o esquecimento dos manipuladores da informação. Isso que é a coisa, que um dia ou outro, já diz até o próprio Chico Buarque outro dia em minha casa... Sabe o seu trabalho... Se você disser o meu trabalho estará por extensão falando do trabalho Vandré, Théo de Barros... Esse trabalho um dia será desenterrada e será ouvido por todo mundo, porque tem valor, tem valor não só histórico, como arqueológico mesmo, de uma época, como é bonito, como não foi superado, tem várias coisas aí que ia ser consideráveis. São obras importantes, como se descobrissem de repente os clássicos entendeu? Porque são clássicas essas nossas músicas, então não há porque condenar a sociedade. É tudo filha.

terça-feira, 8 de março de 2011

Entrevista com Chico de Assis (Jornalista e Dramaturgo)

Jeane Vidal – É verdade que quando o Vandré veio pra São Paulo, ele se envolveu em alguns projetos de teatro com você e outras pessoas na época do Arena?


Chico de Assis – Minha historia com o Vandré começa no Rio de Janeiro, quando o teatro de Arena foi pro Rio de Janeiro e lá o Vandré procurou a mim, especificamente. Porque ele queria entrar num grupo que eu estava organizando que se chamava Teatro Jovem. Eu estava organizando um elenco pra montar uma peça do Vianinha (Oduvaldo Vianna) chamada “A mais valia vai acabar”. Ai o Vandré começou a aparecer lá no ensaio. O meu ensaio era aberto então tinha sempre o pessoal da bossa nova, porque o Carlos Lyra fazia musica da peça, então, o Vandré começou a aparecer, depois ele trouxe até a noiva dele pra fazer parte do grupo.


JV - Era a Nilce na época?


CA – Não, chamava-se Zelinda. E o Vandré ele era compositor. Cantava, mas, ele não sabia direito o que ele pretendia da vida. Se ele queria continuar a carreira dele, se ele queria... Ele era advogado.


JV – Isso foi em que ano mais ou menos, 60, 61?


CA - 60, 61. Ele não sabia o rumo que ele deveria tomar. Ai um dia eu falei pra ele : Olha, você tem que decidir, se você acha que realmente o teu destino é ser cantor e ser compositor, você têm pegar isso, não pode ficar... Ai ele veio pra São Paulo e começou a levar a sério esse negócio do compositor e do cantor. Aqui em Sao Paulo, eu acho que ele desenvolveu melhor a carreira dele. Teve um tempo em que eu preparava cantores. Eu preparei a Elis Regina, a Claudia... E o Vandré me chamou pra dar uma mão pra ele, porque ele achava que ele precisava cantar melhor. Eu também achava que ele era muito tenso, essas coisas todas. Daí eu trabalhei com ele nessa parte de expressão como cantor. Eu estive presente naquele festival de “Por que não falei das flores”.


JV – O senhor foi jurado desse festival?


CA – Eu não era jurado desse festival. Eu era jornalista das Folhas. Do Ultima Hora, no caso. E eu estava lá no festival junto com Walter Silva, o Pica-Pau. E quando aconteceu aquele negócio o Walter Silva saiu lá pra brigar, eu também fiquei chateado com aquilo, não porque eu não gostasse da musica do Chico...


JV – Mas, porque exatamente? Por causa da disputa entre as duas musicas?


CA – Por causa da disputa e por causa do comportamento do júri!


JV – Entendi...


CA – “Sábia” era uma musica bonita, uma musica do Tom, letra do Chico Buarque, não é? Então, uma coisa importantíssima. Mas, a música do Vandré era emblemática, tanto é, que ela provou isso, né? Depois ela passou a ser o hino das passeatas e tal. E a gente já tinha percebido isso na música. Mas, o júri, ou por preconceito com o Vandré, - porque o Vandré era tido como um perigoso comunista - nunca foi, e essa coisa toda... Mas, resolveram optar pelo Chico.


JV – Houve pressão dos militares para ela (a música do Vandré) não ganhar, não foi isso?


CA – Olha, quanto a isso, falam muita coisa, mas ninguém prova nada. Então não é bom falar de uma coisa que você não pode provar. Eu acredito que até possa ter havido, porque os militares não gostavam do Vandré. Os militares eles sentiam ali um germe de um comportamento anárquico. De uma coisa que não era bom pro regime militar. Porque todo regime que não tem base ele fica com medo que sopre o primeiro ventinho, daí ele cai, então esse medo que tinha - porque o regime militar ele ficou, desde o dia 1 de abril de 1964 ate 1985, ele ficou sob o impacto dos ventinhos. Porque era uma coisa sem base, em cima do nada, então qualquer coisa que viesse abalava. Festival de Música abalava, um sujeito dava uma opinião abalava, por quê? Porque tudo que e feito em cima de mentira não tem base, não tem estabilidade. E o Vandré falava direto para a crença das pessoas, no que elas acreditavam, e mais do que isso, no que elas queriam.


JV – Ele induzia as pessoas a pensarem, a refletirem?


CA – Acho que não. Ele induzia as pessoas que já pensavam a se unirem, o que é muito mais perigoso. A música, a arte de forma geral, ela não dá palavras de ordem, ela quando tem alguma coisa inclinada, ela ajuda que essa coisa siga o rumo da inclinação. Então era isso que era a musica do Vandré. As pessoas que estavam lá cantando a musica, elas já tinham dentro dela aquilo, ninguém num dia era fascista e no dia seguinte ficou contra o regime militar. Não! As pessoas já eram contra e pegaram aquela música como representando o emblema delas. Então a culpa nunca é do artista. Você veja, por exemplo, a arte do maneirismo, a arte Cristã. Quando a arte Cristã sai da propagando da igreja, os grandes pintores que pintam aquelas obras, aquela coisa toda, não era pra tirar o mulçumano da religião dele e colocar na Cristã. Era para os cristãos terem um emblema. Então da mesma forma a Música Popular Brasileira, não só a do Vandré, mas, de forma geral naquela época, porque a maior parte dos artistas, dos músicos, dos compositores eles eram contra o governo de exceção. Tinham esse sentido de balançar o edifício mal equilibrado daquele golpe. Fale um pouco.


JV – Existia alguma tensão no júri em relação a escolha da musica? O que o senhor sentiu?


CA – Não sei por que eu só estava olhando eles de longe.


JV – Mas o senhor disse que foi lá para brigar por causa do comportamento do júri. O que o senhor percebeu no comportamento deles?


CA – Olha, foi muito estranho, foi a mesma coisa que aconteceu com o Vandré na “Disparada”. Na “Disparada” o oponente dele era o Chico Buarque. Sempre Chico Buarque. Então “A Banda” era uma musica que não tinha esse emblema, não tinha essa coisa toda. E a “Disparada” tinha. “Disparada” tinha algumas palavras, algumas frases “na boiada já fui boi/ boiadeiro já fui rei....”. Então aquela coisa da transformação do homem, esse negócio todo, falava muito perto do ouvido daqueles que já tinham decidido. “Disparada”, inclusive, pelo seu próprio enigma ela não pode alcançar um neófito, um sujeito que está começando a aprender a realidade. No caso de “Sabia” mais ainda, porque o Sabia era uma coisa lírica, sem nenhuma intenção ideológica, a menor, era uma coisa lírica. E do outro lado aquela música contundente. O grande exemplo na história do mundo disso, e da Marselhesa na Franca. A marselhesa não incutiu em ninguém a idéia de Revolução Francesa. A Marselhesa simplesmente uniu e solidificou um movimento como emblema daquilo, e ficou tão forte que transcendeu aquilo e passou a ser um emblema de tudo que acontecia no mundo naquele sentido. Mal comparando com a música do Vandré, que não saiu dos nossos limites, mas, ainda hoje quando tem um movimento qualquer, lá vem a música do Vandré. Os que precisam de um emblema, e todo mundo precisa de um emblema, principalmente o Brasileiro. O Brasileiro se não tiver time de futebol pra ele botar o emblema, ele quer um emblema qualquer de qualquer coisa pra colocar. Porque há uma necessidade na sua posição de desenvolvimento civilizatório, dele se afirmar como cultura incipiente, já que a gente tem muito pouco tempo de cultura. Então precisa disso. Então, se você fizer um hino para o Corinthians, ninguém vai se tornar corintiano por causa do hino, mas, os corintianos vão usar a musica como emblema, então, é mais ou menos por ai.


JV – Aqui em São Paulo o senhor foi um dos fundadores do CPC da UNE, não foi?


CA – Eu fui um dos fundadores do CPC no Rio de Janeiro, o primeiro CPC.


JV – Aqui em São Paulo não?


CA – Aqui em São Paulo também. Rio de Janeiro, São Paulo. E trabalhei no de Santo André e no da Bahia também.


JV – E o Vandré estava envolvido também com o CPC?


CA – No meu tempo não.


JV – Nem aqui em São Paulo?


CA – Não. Pode ser que ele tenha se envolvido depois que eu saí, que fui fazer alguma coisa ele deve ter aparecido, mas não sistematicamente. O Vandré na época ele estava trabalhando a carreira dele, fazendo shows e participando de festivais. Ele teve uma música que não foi muito boa, e que não deu muito retorno que foi a do Caminhoneiro.


JV – “Ventania” no Festival de 66?


CA – “Ventania”. E, ele esperava que fosse repetir alguma coisa e não repetiu, acho que ele ficou meio estranho. O Vandré depois que houve esse episódio... É muito mítico, tem mais mito do que verdade. Por que, verdade, como dizia lá o livro do Jonhson “mito é uma mentira que tem uma verdade dentro”. Agora, pra achar a verdade dentro, nesse caso, é um pouco difícil, porque fica muito sobre o mito, sobre as prisões e torturas, essas coisas e tudo que não sei bem como é que foi isso. Só sei que ele tinha um amigo muito grande que era o Abreu Sodré que o protegia...


JV – Dizem que foi o Abreu Sodré que, na época, o ajudou a sair do País...


CA – O Abreu Sodré era apaixonado por ele. Então, o escondia no Palácio, essas coisas todas. Eu só sei que em um determinado momento, por um motivo ou por outros, ele ficou um pouco atingido no seu discernimento. E passou a ter um comportamento intempestivo que hora era de uma calma, e hora era de uma exaltação de si mesmo, uma coisa terrível. E aí, desde aquele tempo todas as vezes que o encontrei ele sempre, não sei se a minha presença fazia com que ele lembrasse de alguma coisa, esse sempre passava dessa calma pra uma coisa...


JV – Isso antes ou depois do exílio?


CA – Depois. Então ele uma vez me deixou na padaria da Tupi, na Real, conversando comigo saiu gritando na rua contra o governo da época.


JV – Faz tempo isso?


CA – Faz muito tempo. Estava no regime militar ainda. Foi no governo Geisel isso.


JV – Ele voltou para o Brasil em 73.


CA – Aí ele gritava, não vou dizer nem o que ele gritava porque não é de boa educação. Mas ele imprecava contra o governo. No meio da rua. Daí eu o encontrei outra vez, quando ele chegou pra mim e falou assim: lê essa poesia. Aí eu li, era “Fabiana” (música feita em homenagem a FAB). Aí eu falei assim: essa “Fabiana” é a sua namorada? – não, é a Força Aérea Brasileira. Como o poema era as vezes enigmático, eu achei que estava ligado a algum distúrbio dele dessa síndrome de Estocolmo. Você conhece essa síndrome de Estocolmo? É quando a vítima se apaixona pelo algoz. Então eu falei: Será que ele tá com a Síndrome de Estocolmo? Será que é isso que tá acontecendo? Mas isso se alternou com outras coisas. A última vez que eu encontrei o Vandré foi num Candomblé, o Candomblé do Mendes.


JV – Aqui em São Paulo?


CA – É. Encontrei com o Vandré, ele estava legal. Essa época, essa contemporaneidade, do Vandré, minha, ela foi perturbadora, ela exigiu das pessoas que as pessoas fizessem alguma coisa. Qualquer tipo de coisa. E no fazer alguma coisa, essas pessoas foram encontrando, as vezes, caminhos não esperados pra si mesmo. E como talvez não estivesse preparado para assumir esse tipo de comportamento anti-Estado, anti-Governo, talvez tenha provocado nela, não é só o Vandré, uma porção de gente que ficou assim. Os outros que eram gente mais acostumada ao trato político morreram sem chegar nisso, muitos. E outros viveram como eu, entendendo passo a passo o que estava acontecendo. Você quando é um ativista político você não pode sair na rua levando um salva-vidas debaixo do braço, pra em caso de qualquer coisa você usá-lo. Então você tem que ter esse salva-vidas na cabeça, e as vezes as pessoas não tem, e levam um susto com o que está acontecendo em torno dela. Porque o Vandré ele tem muito talento. Muito talento. É talentoso como compositor, é um bom letrista como mostra em “Disparada”, a música não é dele, é do Theo (Théo de Barros). Em “Pra não dizer que não falei das flores” ele faz a música e a letra. A música não chega a ser uma coisa muito expressiva essa coisa toda, mas, a letra carrega a música e leva pra frente. Ele faz parte de uma geração, que é a geração da Bossa Nova que depois se transforma na MPB. E o Vandré foi aquele que passou pela Bossa Nova e já entrou na MPB. Porque a Bossa Nova era um movimento muito suave, eu creio, para o temperamento do Vandré.


JV – Ele dizia que a Bossa Nova recebia muita influência dos EUA.


CA – Bobagem. A música brasileira da bossa nova recebe muito mais influência do México do que Estados Unidos. Toda Bossa Nova é um bolero enrustido. Sabe? Isso é uma coisa que meu parceiro Carlos Lyra, ele dizia isso e ninguém acreditava. Não é americano é mexicano! Então essa geração é uma geração que foi em minha opinião, na República Brasileira depois do Império, a geração mais dinâmica que houve. Ela experimentou os golpes, as pancadas, as derrotas e as vitórias. E as construções. O que foi construído naquela época é base de tudo de bom que está sendo feito hoje, nas artes e fora das artes. Aqueles garotos que não eram das artes, um é governador de São Paulo, o outro é isso, o outro é aquilo. Então na política, em tudo, aquela geração forjou tudo que está acontecendo hoje em dia de bom. As porcarias vieram de outras fontes. Então é uma geração que se provou na prática. Eu diria que a geração da coragem de se assumir, não só como pessoa, como geração.


JV – O que não se vê hoje não é mesmo?


CA – Não hoje não. Hoje há uma timidez...


JV – As pessoas vivem num estado de inércia...


CA – O problema sabe, é uma palavra só. A grana. Hoje em dia os garotos de 13,14 anos eles já pensam na grana, então eles querem saber da grana. Na minha época a gente não pensava absolutamente na grana. A gente pensava em fazer coisas. O que nós vamos fazer? Vamos fazer isso, vamos fazer aquilo, vamos fazer o cinema novo, o teatro novo, a música nova, a cultura nova, história nova, tudo isso estava se fazendo de novo. Esse processo era um processo de... Não tinha o que pagasse. Então, essa geração teve vários produtos que são muito forte, um deles é Geraldo Vandré. E o Geraldo Vandré ele teve a sensibilidade de entender que a nação brasileira durante os anos de chumbo precisava de um emblema, ela precisava se auto-reconhecer na arte. Então ele fez aquela música que deu um resultado preciso, tanto a “Disparada” quanto a “Pra não dizer que não falei das flores”. Por coincidência do destino ele iria disputar com Chico Buarque nas duas coisas. O Chico Buarque que era tido como um perigoso comunista, não era comunista, era um sujeito de esquerda sim, mas não era comunista. O Vandré também não era comunista, era um sujeito de esquerda sim, mas não era comunista. Mas, os meios de divulgação do governo e as pessoas que eram colocadas pelo governo nos jornais, achavam né?


JV – A mídia fomentava um pouco essa idéia dele ser perigoso para o Regime?


CA – Sim. A mídia era muito cerceada na época. Eu era jornalista então eu sei o que era isso. Muito cerceada. E o pior que tudo, pra não ser cerceada a mídia se auto-regulava. Então dava uma puxadinha no saco do governo aqui, pra poder falar uma coisinha aqui. Uma permuta nojenta, mas digna dos governos militares. Então dentro de tudo isso, o Vandré fez um trabalho muito bom com o Quarteto Novo. Porque o Quarteto Novo o acompanhava nos shows e o Quarteto Novo foi uma das maiores coisas que aconteceu no Brasil. Eles, um tempo ensaiavam na minha casa, o pessoal do Quarteto Novo.


JV - Voltando ao Vandré. Essa época que ele trabalhou com senhor ele chegou a encenar alguma peça? Porque eu li que quando ele veio para São Paulo, veio trabalhar com o Augusto Boal e com o senhor.


CA – Com o Boal eu não sei. Comigo, eu ensaiei ele como cantor.


JV – Só como cantor?


CA – É. Eu o ensaiei como cantor. Isso foi logo depois de 64, quando eu estava meio sem possibilidades. Eu estava trabalhando no Ministério da Educação, em 64. Estava lá no Serviço Nacional de Teatro quando estourou toda aquela bosta eu fiquei meio...


JV – O Senhor chegou a ser preso?


CA – Não. Não me deixei ser preso.


JV – Chegou a sair do Brasil?


CA – Não. Eu fui procurado. Depois quando já não interessava mais me prender eu fui impedido de trabalhar em algumas coisas. Eu fui censurado de forma total, ou seja, nada do que eu fizesse era pra ser aprovado. Essas coisas. Mas, nunca fugi de casa e também nunca fui preso.


JV – Na TV Excelsior o senhor foi um dos mentores do programa “Ensaio Geral”, não foi isso?


CA – do Ensaio Geral? Fui.


JV – E o Vandré se apresentava nesse programa?


CA – Se apresentava.


JV – Como era as apresentações dele , o senhor se lembra?


CA – Cantava as músicas dele. No Ensaio Geral nós tínhamos 70 cantores. Era a nova geração da música brasileira completa. Baby, Caetano, Betânia, Gil, tudo mundo lá, Sidney Myller, o melhor da geração estava lá. Foi em minha opinião o maior e o melhor programa de música brasileira que já foi feito no Brasil. Foi Ensaio Geral. O Vandré, como o Lyra, como qualquer outro daqueles nomes da Bossa Nova que se desviaram para esquerda, ele não podem ser examinados a margem do fato. Do fato governo militar e do que as pessoas tinha que fazer contra aquele governo e a favor de uma volta a democracia. Eles não podem sem analisados apenas como cantores e compositores. Eles não são. Eles são agentes do povo em determinado momento. Então essa é a diferença que hoje não tem. Hoje não tem nenhum agente do povo mais. O povo que se dane como diz o outro. Ninguém pensa no povo. Pensa no povo como comprador de seus discos, pra bater na palma na platéia...


JV – Apenas como consumidor, não é?


CA – É verdade. Não como agente da história. Até é uma besteira, se não for o povo quem faz a história, eu não sei quem é que vai fazer. Se um dia ficar provado que a história se faz no Congresso da República, eu realmente só tenho um caminho: o suicídio. Eu acho que a história se faz com o povo. É o povo que vai carregando... E principalmente o povo brasileiro que carrega esse País, que tem o ônus de carregar! E não é só o povo povão não! É a classe média! Que carrega esse país nas costas, que paga mais imposto que qualquer lugar do mundo, que trabalha pra cachorro! O Brasileiro é um povo muito trabalhador, embora as pessoas digam que baiano não trabalha, carioca não trabalha. Tudo isso é mentira, isso é mentira! O pessoal não conhece o Brasil, não sabem o que estão falando. Então esses... O outro é o Sérgio Ricardo. O Sérgio Ricardo foi muito importante também, não é porque é meu compadre, mas ele foi muito importante. E como eu sou um pouco responsável pela politização dele, como sou do Lyra também, aquele pessoal todo. Você leu o livro do Zuza Homem de Mello?


JV – A Era dos Festivais? Li.


CA – No livro você vai encontrar...


JV – No livro ele cita que o senhor era um dos jurados no III FIC...


CA – Mas no livro dele ele diz que quem virou a Bossa Nova pra MPB fui eu. Eu pessoalmente. Então, não fui eu pessoalmente. Isso aí é uma coisa que não é assim. Agora, quem apressou a tendência fui eu. Fiz a Bossa Nova virar outra coisa. Porque a Bossa Nova era muito suave. Imagina, numa época em que tinha gente morrendo nos porões da ditadura: “e o barquinho vai...” num era bem a coisa, embora eu adore essa música, eu acho que a Bossa Nova foi o movimento mais bonito...


JV – Ela era meio elitizada, não? CA – A Bossa Nova?


JV – É.


CA – De certa forma, se você considerar que a Classe Média é uma elite, sim. Mas não era do ponto de vista cultural essas coisas. Ela tinha pontos que se destacavam, mas não era uma coisa geral. Você tinha ali muito talento musical, muito talento poético, essa coisa toda. E na MPB você tinha mais uma coisa: você tinha aliança, aliança com o povo. Então essa aliança ela fez com que a MPB suplantasse a Bossa Nova rapidamente. Porque quando você pega, vou dar um exemplo pra você: teve um festival que o Jhonny Alf colocou uma música, como é o nome da música? “Eu e a Brisa”. No dia que essa música foi julgada pelo júri eu estava trabalhando na “Última Hora” na época e o Solano Ribeiro era quem produziu o festival, e eu ali por trás da cortina soube que o júri tinha podado a música do Jhonny Alf. Aí o cheguei pro Solano e disse: Solano esse pessoal é louco, essa música vai durar a vida toda. Ele vai ter mais de 10 mil gravações, esse pessoal é idiota, eles não sabem o que estão fazendo. Não deu outra. “Eu e a Brisa” é um dos ícones da Canção Brasileira e a canção que ganhou na época... Qual foi? Eu nem lembro.


JV – Não é aquele festival que “Ponteio” ganhou não, é?


CA – Não. Esse festival que “Ponteio” ganhou eu peguei o fotógrafo do “Última Hora” e disse: Fotografa o ganhador do Festival. No 1° dia, ele ainda não tinha cantado a música. Eu já conhecia a música. Peguei ele e o Capinam: Fotografa aí os vencedores do festival. Eu sabia que ia ganhar. A música tinha tudo para o emblema. Embora fosse uma música decodificada. Naquele tempo as músicas elas tinham maquiagem, então quando você diz: “quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar...” embutido nisso tem a liberdade. Mas, essa época o Vandré é o mais louco dos representantes. Mas todos os outros são igualmente dinâmicos e alcançaram cada um o seu pedaço. O Sérgio Ricardo talvez seja o mais sério de todos. “Calabouço” que foi uma música que o exército tremia, desesperados.


JV – Houve uma peça de teatro com esse mesmo nome não é?


CA – Não me lembro. Mas eu em determinado tempo da minha vida, eu junto com o Sérgio Ricardo, Ary Toledo, Geraldo Vandré, formamos uma firma chamada ONDA – Organização Nacional de Divulgação Artística.