terça-feira, 10 de maio de 2011

Entrevista com Alberto Helena Junior - 3ª parte (Final)

Jeane Vidal – Essa fuga do Vandré foi mais por paranóia dele, porque ele achava que seria preso ou de fato foi decretada a sua prisão?

Alberto Helena – Não, aconteceu o seguinte: o Chico havia sido chamado para depor, é que é preciso entender muito a época. A época propiciava paranóia mesmo. Eu próprio, até hoje me arrependo, minha ex-mulher só falta me dá croque na cabeça... Quando aconteceu a morte do Vlado (Vladimir Herzog) o Fernando Faro era diretor da Cultura e me ligou naquele sábado de manhã, eu morava no Morumbi, e ele me ligou e  disse “o Vlado e o Marquito foram levados para o Dops e eu queria o telefone do Rui Mesquita pra vê se o Rui Mesquita (que era o dono do Estado, do Jornal da Tarde), pode interceder pra que não aconteça nada com eles”. Eu peguei o telefone do Rui Mesquita, passei pra ele e a noite no dia seguinte, ficamos sabendo que ele tinha sido morto lá. O Rui Mesquita foi lá e teve tempo de tirar o Marquito, mas não conseguiu tirar o Herzog. Porque o Marquito trabalhava com ele, era repórter econômico do Jornal da Tarde. E a tarde eu fui para o jogo de futebol lá no Pacaembu, depois fui para o jornal escrever a coluna e quando eu estava voltando a noite, eu não tinha carta, nunca tinha tirado carta, dirigia sem carta. E cheguei ali na subida da Avenida Morumbi, ali no alto, quando cheguei ali, estava o exército, com metralhadoras, porque é perto do Palácio ali. Mandaram eu encostar o carro, eu encostei, pediram documentos tal, eu fiquei assustado. Eu estava lá negociando com os caras e chegou um Sargento lá e me reconheceu de negócio de futebol, aí quando souberam que eu era jornalista só de esportes me liberaram. E eu cheguei em casa apavorado, com medo que os caras tivessem ouvido qualquer coisa. Aí queimei um monte de livro de marxismo, joguei tudo na lareira de casa... Era um tempo de terror mesmo, sabe? Era muito medo, você ouvia barulho do lado de fora da sua casa, você olhava pela janela você via caminhões do exército parados, você não sabia o que era, era um terror! Espero que ninguém mais tenha que passar por isso! Temo que as gerações que vieram depois não tenha a menor noção do que foi e sejam até capaz de, como na época as paneleiras foram lá bater panela, venham fazer essa mesma besteira no futuro. Bm, mas enfim... Eu lembro que o Chico tinha sido chamado, ele (o Vandré) eu não me lembro se chegou a ser chamado, parece que foi, vários tinham sido presos, muitos desaparecidos, isso desde 64, mais a coisa aumentou a partir do Ai-5 em 68. O Vandré, ele eu acho que foi por medo mesmo que saiu, como o Chico. O Caetano e o Gil foram presos lá no quartel do Rio de Janeiro porque teriam cantado Hino Nacional em ritmo de rock O Randal Juliano andou falando no rádio, e eles foram lá e pegaram os dois. Eles não chegaram a apanhar, mais sofreram humilhações e também foram liberados e também caíram fora. Todo mundo começou a... Começou a revoada, todo mundo foi e o Vandré foi também, porque ele era o mais visado...

Jeane Vidal – Mas, ele foi um dos primeiros a ir embora?

Alberto Helena – Acho que foi mais ou menos todos na mesma época. Eu me lembro, eram jornalistas, quem tinha uma ligação mais íntima com a política da esquerda caiu fora. Ficar aqui era um risco. Outro que desapareceu, teve até uma cena muito engraçada. Quando foi dado o golpe em 64 o Chico de Assis, que era jornalista e teatrólogo,. O Chico de Assis era ligado ao CPC, tinha muita militância política e logo após o golpe ele sumiu. E foi pranteada pela turma durante muito tempo. Um dos mártires, um daqueles que haviam sido mortos. Contavam várias histórias, que ele tinha sido jogado do avião.... e todos nós ficamos lamentando... (risos) e logo depois que eu casei no festival de 67 aquele do violão do Sérgio Ricardo, que ele jogou o violão no pessoal, também começo do tropicalismo “domingo no parque” e tudo mais... Eu tinha comprado uma casinha no Alto da Boa Vista e esse foi o primeiro festival que houve a gravação em vídeo tape, que era reproduzido depois. Então eu combinei com a turma pra ir lá em caso pra gente assistir em casa tomando um wisquezinho e tal. O Gil, Caetano, a Gal, o MPB-4, o Chico, o Toquinho, enfim todo o pessoal que tava ali, pra ir lá. E entre eles o Inácio Loyola e o João (cantor Leão de Chácara), cantor aqui de São Paulo, morreu já. E um deles, um dos caras que eu convidei era o Chico Maranhão que foi classificado com uma música que fez muito sucesso “Gabriela”. E esse desgraçado do Maranhão convidou a Puc inteira pra ir em casa, e era uma casa pequena. O cara chega convidando tudo quanto é... de repente aquele casa virou um inferno, gente pra todo lado, e eu olho lá, chego na cozinha quem é que tava fazendo guerra de melancia e queijo? O Toquinho, o Torquato Neto e o Chico de Assis! vivíssimo!

Jeane Vidal – E aonde ele tinha ido parar esse tempo todo?

Alberto Helena - Diz que tinha ficado escondido anos numa fazenda da mulher dele, do sogro dele, uma coisa assim. Até o Loyola depois no livro dele “Zero” tem um capítulo chamado “A festa” que ele conta esse episódio. O nosso “mártir” tinha sido surpreendido vivíssimo fazendo uma guerra de melancia.

Jeane Vidal – Perdeu a chance de virar mártir (risos)

Alberto Helena – Então tinha essas coisas, então tudo isso fazia, colocava essa paranóia mesmo.  Agora pelo que eu soube a volta dele, ele não foi torturado, ele que se dispôs a fazer aquele depoimento, aquela retratação. Aquilo foi um absurdo, aquilo foi um crime contra todos os companheiros. Por medo, isso aí ninguém me tira da cabeça.

Jeane Vidal – Parece que ele sofreu uma pressão psicológica muito grande, não é?

Alberto Helena – É, mais todos sofremos, todo mundo sofreu e só ele que fez aquilo, mais ninguém.

Jeane Vidal – O que eu li é que todos que voltavam naquela época eram submetidos a essa retratação pública.

Alberto Helena – não, porque o... Bom, os que voltaram naquela época.

Jeane Vidal -  É porque ele voltou antes da anistia. Ele voltou em 73.

Alberto Helena – Mas eu também acho que os baianos voltaram antes da anistia.

Jeane Vidal – A anistia foi em 79...  Embora  ele legalmente nunca tenha sido exilado.

Alberto Helena – Não, ele próprio se exilou, como todos os outros! Aliás nem o próprio João Goulart e o Brizola foram exilados do país, eles que se exilaram.

Jeane Vidal  – Parece que houve uma negociação entre a família dele e um coronel do exército, pra que ele voltasse, porque parece que ele estava passando por dificuldades no Chile.

Alberto Helena – É muito possível que isso tenha acontecido por conta da doideira dele. Porque ele era difícil tratar e de repente ninguém queria. Ele era muito megalomaníaco, muito complicado, muito...

Jeane Vidal - As pessoas acabavam se afastando...

Alberto Helena – Acabavam se afastando, ninguém queria negócio com ele, entende? Ele tinha coisas... Depois da volta,  ele ia no Estadão, por exemplo,  sentava lá na máquina, ficava escrevendo,  ele não era nada, não era funcionário, ninguém sabia o que fazer com ele...

Jeane Vidal – E as pessoas deixavam-no entrar?

Alberto Helena – Ele era o Geraldo Vandré! E ninguém sabia se ia lá... E também não tinha muito portaria, essas coisas de segurança que tem hoje. E ele era o Geraldo Vandré, parece que andou namorando uma Mesquita lá, ou quis namorar, não sei... Eu sei que ele andava por lá, ficava lá, batucando a máquina e ninguém sabia o que ele estava fazendo lá. Ele tinha umas coisas de maluco. Depois que ele voltou ele ficou uns tempos morando na casa do Faro, se você procurar o Faro ele vai te contar essa história. Ele estava na caso do Faro e pediu o carro emprestado e saiu. Daqui a pouco o Faro recebe uma ligação. Ele foi preso passeando na porta do quartel de Quitaúna. Era uma coisa de louco!

Jeane Vidal – As pessoas que conviviam com ele, nessa época, não era tão amigas dele  a ponto de agüentar essas "loucuras"?

Alberto Helena – Eu acho que o único...

Jeane Vidal – Ele não tinha um vínculo forte com ninguém?

Alberto Helena – Ele era muito egocêntrico, e quem não se dá acaba não recebendo né? É difícil uma pessoa que seja só ele, mais ninguém, que crie um vínculo de amizade, porque amizade implica em reciprocidade, ele tem que aceitar o outro, ajudar. Quando você só fala, e é só você, e outro vai falar você percebe que o cara não tá nem prestando atenção, tá pensando nele, então você não cria vínculo. O único que eu sei era o Fernando Faro, cuja casa ele dormiu várias vezes, e eu acho que o Faro é que pode falar muito mais, porque conviveu, o cara vivia lá na casa dele.
Então, aí quando ele voltou teve esse negócio de renegar tudo que tinha feito e dizer que nunca fez música de protesto e começou a fazer umas músicas que eu, confesso a você, que eu não tive mais contato.

Jeane Vidal – E depois que ele voltou vocês não tiveram mais contato?

Alberto Helena – Não, eu tive umas duas vezes. Uma vez eu era comentarista de futebol da Bandeirantes, eu tinha visto ele por lá, mas, não quis conversar.  Certo dia eu estava saindo, ele deve ter me visto passar no corredor, eu estava no carro e no que eu dei partida pra sair ele parou enfrente do carro. Aí parou na frente do carro e veio falar comigo. “você agora é muito importante lá no Estado, você não me arruma um emprego lá, você me arruma um emprego de seu auxiliar, você não precisa de um auxiliar?” Umas conversas malucas.  A outra vez foi nessa noite que eu encontrei que ele estava até com uma moça, que ele cantou umas músicas que tinha feito, nada que me tivesse marcado a ponto de guardar na memória. E depois nunca mais. Enfim, essa é minha história com o Vandré.

Jeane Vidal – Você acha que o fato dele nunca mais ter cantado no Brasil foi opção dele ou foi porque realmente ninguém queria assumir compromisso com ele?

Alberto Helena – Eu acho que é a combinação dos dois. Eu acho que no fundo ele sabe que fez merda em ter feito o que fez. Dizer aquilo tudo, renegar tudo, fazer aquele depoimento em favor da revolução do golpe militar. E outra é essa coisa que também existe esse cooperativismo, mais naquele tempo, naquele período, hoje é a lei de Gerson.

Jeane Vidal  – Existe uma briga com relação aos direitos autorais. Segundo ele algumas pessoas gravaram suas músicas sem autorização.

Alberto Helena - Aí eu não sei essa questão.

Jeane Vidal – Ele disse em uma entrevista que não vai atrás, que não liga pra dinheiro.

Alberto Helena – Ele não é mesmo argentário, vamos dizer assim. Aliás o contrato que ele fez com a Record do “Disparada” foi um contrato mirabolante naquela época. O pai dele também, eu acho que tinha grana, ele era fazendeiro. Ele tinha uma “pinimba” com o pai, os dois viviam brigando e se amando e brigando. Mas, isso também pode ser coisa de pai e filho. Mas eu sei que o pai, eu me lembro, na época, era fazendeiro, tava bem de vida eu não sei em  que deu. Mas o Vandré de qualquer jeito ele foi naquele período, anos 60.... E essa música dele (Disparada) é uma obra prima  da música popular brasileira que ficará eternamente. É um legado dele que não tem paralelo. Disparada, a criação do Quarteto Novo, que foi um show absolutamente novo, brasileiro, mas,  ao mesmo tempo universal. E isso foi da cuca dele, foi invenção dele. E enfim, o fato do programa “Disparada” ter o primeiro musical editado no Brasil, tinha um alto nível cultural. Ele recitava, fazia monólogo de Guimarães Rosa, Drumont, era um outro nível. Era um programa muito importante culturalmente falando, embora tenha sido um desastre pra  fazer e pra se manter no ar. Ficou pouco tempo no ar. Ele era muito esquisito, muito maluco, mesmo quando ainda não era reconhecidamente louco.

Jeane Vidal – A ex-mulher dele, Nilce Tranjan, em uma entrevista diz, quando questionada sobre a suposta loucura do Vandré,  que se ele está louco é porque ele sempre foi assim,  desde quando ela o conheceu ele sempre teve essa postura anti-convencional.

Alberto Helena – Ele é megalomaníaco, tudo dele era melhor, você não podia dizer “ Pó você viu a letra daquele samba do Paulinho?” “a minha é melhor! Você viu a minha?” era assim. Não tinha espaço pra ninguém. Sabe, o Chico, tinha essa grandeza, se fosse ele nunca faria isso, nunca!

Jeane Vidal– O problema era vaidade excessiva então?

Alberto Helena – Eu acho que vai um pouco além disso. Eu acho que o caso dele é meio patológico. Eu não sou médico, nada disso. Mas se você conversar com todo mundo que conheceu o Vandré na intimidade vai dizer isso pra você. Se a própria mulher disse isso é porque é verdade. Ela dormia com ele, conhecia e foi quem mais gostou dele, afinal de contas, casou. Eu sei que no final ela me dizia que não agüentava mais, não suportava mais, era muita loucura, era muito eu, eu, eu.... não sobra nada pra ninguém.

Jeane Vidal – Ele diz que nunca se assistiu cantando "Caminhando", que nunca viu nenhuma cena do Festival.

Alberto Helena – Ele não passava em frente do espelho sem parar e ficar se olhando! O Vandré deve ter visto milhões de vezes! Quando você falou esse negócio que aconteceu com ele. Foi a mesma coisa que aconteceu com Wilson Simonal.

Jeane Vidal – Wilson Simonal foi tido com dedo-duro, delator...

Alberto Helena – A diferença é que o... Olha que tremenda coincidência. Nós estamos falando tudo isso, eu me lembro de uma discussão na revista Cruzeiro, na redação, do Vandré com o Simonal sobre política. O Simonal era um cara de direita, semi-alfabetizado, e o Vandré de esquerda, e os dois brigando lá discutindo,  os dois eram meus amigos e foram me procurar lá, eu trabalhava de repórter especial do Cruzeiro e os dois se pegaram numa grande discussão lá.  E os dois acabaram tendo o mesmo destino, quer dizer, o Vandré porque renegou  e o Simonal porque ficou tachado de direitista e o pessoal tirou ele de cena. Tanto é que ele não teve mais sucesso depois daquele episódio do motorista.

Jeane Vidal – O Sérgio Ricardo também ficou esquecido...

Alberto Helena – Mas o Sérgio Ricardo não tinha o talento do Vandré. Sérgio Ricardo era um caso até mesmo mais versátil, porque o Sergio Ricardo era Radialista, era Jornalista, era Diretor de Cinema, ele fazia programa, fazia música. Ele tinha um preparo musical muito maior do que o Vandré. Ele fazia regência, tocava piano muito bem, era um cara de uma formação, vamos dizer assim, mas enciclopédica. Lia mais que o Vandré. O Vandré era um talento bruto, aquela coisa que nem os baianos também. E o Sérgio Ricardo já era... mas, ele não tinha talento pra criar. Também como o Vandré ele começou fazendo e compondo e interpretando música romântica. O primeiro LP do Sérgio Ricardo chamava Mister Tédio. Depois ele virou, ele passou a fazer essa música de protesto. E também sumiu, nunca mais vi. Ele ficou muito marcado com aquela história do “Beto Bom de Bola”, do violão, ele ficou muito indignado com aquilo. Mas, ao contrário do Vandré que era esfuziante, o Sérgio Ricardo ele tinha uma certa tendência a melancolia, se enraivecer, fazia ele voltar pra dentro de si. Também a música brasileira foi massacrada nas última três décadas.

Jeane Vidal – E o João Gilberto era amigo do Vandré?

Alberto Helena – Não.

Jeane Vidal – Ele foi o primeiro professor de violão do Vandré.

Alberto Helena – Pode ser sim. Mas eu confesso pra você que eu não me lembro deles conviverem. Não sei, teve uma época que o Vandré morou no Rio, pode ter sido antes desse período.

Jeane Vidal  – E com o Chico(Buarque) ele tinha um bom relacionamento?

Alberto Helena – O Chico também é outro Padre. Sempre com aquele sorriso. Tá tudo bem pra ele... Mas, não era da turma. A turma do Chico era eu, que saía sempre junto, eram poucos, eu, o Paulinho da Viola, e a turma dele da faculdade de arquitetura. Conhecia o Vandré, se davam bem, mas não era... O Vandré gravou, apresentou uma música do Chico, mas não era assim... íntimo. Quem era mais íntimo do Vandré... Eu fui durante um período amigo do Vandré, o Fernando Faro foi o tempo inteiro, o Franco Paulino foi também durante um período, o Trio marayá, principalmente o Hilton Accioly, o pessoal do Quarteto Novo... Músico, músico instrumentista é tudo muito desligadão... Quem pode também falar dele é o Théo de Barros, foi parceiro dele em Disparada e outras músicas, é um cara muito lúcido, muito boa gente e tal. O Goulart de Andrade... O Juca de Oliveira não foi amigo dele, mas, conhecia muito ele da casa do Faro, porque o Juca é genro do Faro. E era amigo do Faro desde quando a atual mulher dele era menininha ainda. Então ele deve ter convivido muito com o Vandré e pode contar algumas histórias. Ah! A mulher dele (do Juca)  também pode contar muitas histórias. 

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Entrevista com Alberto Helena Junior - 2ª Parte


Fachada do antigo Teatro Record (atual Teatro Abril), localizado na rua Brigadeiro Luiz Antônio, no centro de São Paulo

Jeane Vidal – Foi quando o Chico Buarque disse que se dessem pra ele o prêmio ele devolveria em público?

Alberto Helena – Exatamente. Pra você vê o alcance dessa música. Aí surgiu o seguinte: a nossa turminha, eu, o Solano e o pessoal todo ali da música, todos nós reuníamos desde os anos 60, porque essa coisa da musica veio pra São Paulo, era no Rio, nos anos 30 era tudo no Rio, nos anos 40, 50. E nos anos 60 veio para São Paulo, aqui é que começou borbulhar o show universitário, circuito universitário, era muito forte, o show da Mackenzie, um show que eu fiz pra Engenharia do Mackenzie em 61, chamado Cancioneiro do Brasil, apresentado por Sérgio Porto.  Eu trouxe Araci de Almeida, Silvio Caldas, Ciro Monteiro, Jacó do Bandolim, foi um espetáculo aquele show. Aquele show foi tão significativo que o Vinícius de Moraes que estava na platéia -  porque no dia seguinte ele ia participar de uma manhã de autógrafos dos livros da Editora Sabiá - ele ficou tão impressionado, porque quando a bossa nova surgiu ela meio que passou a repudiar a chamada velha guarda, essa dos anos 30, a época de ouro, então criou-se um conflito, e o Vinícius que tinha vivido a experiência anterior e era um dos pais da bossa nova resolveu fazer junto com o Baden Powell um samba chamado “Samba da Benção” que ele pedia benção a todos esses velhos compositores, cantores, músicos, como se fosse um abraço a velha guarda e a música brasileira dando essa dimensão maior, histórica. Bom, aí tudo acontecia aqui e, continuou, isso tudo fazia parte de um projeto cultural nosso que implicava em combater o lixo na televisão, o lixo era se comparado a hoje, era ouro em pó,  porque, o que tem de lixo hoje na televisão, não chega... Era o Chacrinha, a Jovem Guarda do Roberto Carlos, isso aí era o lixo cultural e a gente queria sobrepor com um movimento músico cultural, músico literário, que tivesse uma dimensão maior e tivesse um objetivo maior que era o objetivo político de conscientizar as massas, um sonho de uma noite de verão, um fato que na época funcionava. Então tudo isso era feito, isso implicava em muitas discussões, debates, fóruns sobre música popular. Tinha um restaurante, um bar em São Paulo que chamava Ponto de Encontro, que era um misto de livraria e bar, que se fazia muita palestra, fazia muitos debates, discutia-se Música Popular Brasileira, e  cada jornal tinha um crítico de música popular brasileira, coisa que eu fui também, aí era todo o projeto. Como o festival era a grande chave de entrada nesse mercado da Televisão que estava começando a ganhar uma dimensão maior, esperávamos que, a turma do Solano, quer dizer, o Solano, eu, o Renato Correia de Castro, Marilú Martinelli, que eram as pessoas do núcleo que faziam o Festival,  esperávamos que fossemos ganhar na seqüência do Festival, o programa, porque já o Fino da Bossa começava a se esgotar, um programa musical com os caras do Festival: Chico, Vandré, Caetano, Gil, Paulinho da Viola, Toquinho, toda essa tropa... Mas acontece que o Paulinho de Carvalho resolveu entregar para a Equipe A, que era composto pelo Nilton Travesso, o Tuta, que era irmão dele e dono da Jovem Pan hoje, Raul Duarte, e o Manuel Carlos, hoje escritor de novelas. Essa era a Equipe A que era a turma principal; as produções eram dividas em núcleos, e então o que aconteceu: o Paulinho entregou o programa do Chico e da Nara “Pra vê a banda passar” para Equipe A e jogou no nosso colo Ronnie Von que era tudo quanto a gente não queria. O Solano Ribeiro que era contratado da Record, ganhava uma nota violenta, ele falou: eu não faço, isso eu não faço. E eu não era contratado, eu ganhava por produção, e precisava, estava pra casar e tal, eu precisava, tinha parado com jornal, minha profissão mesmo. Falei:  não, eu tenho que encarar essa, fazer o quê né e aí até fui eu que dei o nome dos Mutantes aos Mutantes, eles tinham um nome lá em inglês, complicado. O Ronnie Von falava muito, era da mutação, nós somos todos mutantes...

Jeane Vidal – Mas o Ronnie Von  não fazia parte dos Mutantes...

Alberto Helena – Não, ele era o dono do programa, ele era o apresentador, a figura principal, ele tinha acabado de fazer sucesso e a idéia do Paulinho de Carvalho era pegar um público entre uns 12 a 16 anos, principalmente meninas adolescentes que eram todas apaixonadas pelo Ronnie Von, pelos olhos claros, os cabelos loirinhos, jogava o cabelo pra trás, era um encanto, a meninada ficava doente, pra fazer um programa ao vivo no domingo antes da jovem guarda. A Jovem guarda começava cinco, seis horas da tarde, então esse programa seria das duas as cinco, uma coisa assim, das quatro as cinco, e deu Ronnie Von. Pra mim era uma tortura aquilo, guitarra elétrica, aquela coisa, aquelas músicas, mas enfim, tive que fazer. Mas acontece que nesse processo o Vandré e os baianos ficaram enciumados com o negócio de o Chico comandar um programa, então, entrou a fogueira das vaidades. E surgiu uma possibilidade de fazer um programa na TV Excelsior chamado “Ensaio Geral” e que eles foram fazer, eles não quiseram participar da Banda “Pra vê a banda passar” e foram fazer esse Ensaio Geral na TV Excelsior. E foi também uma confusão porque aí o Vandré queria ele comandar o programa, os baianos queriam eles comandarem, no fim ficou aquela encrenca e eu fui no Paulinho de Carvalho e no Marcos Lázaro e disse: “Pô vocês precisam trazer o Vandré pra cá”.

Jeane Vidal – O Marcos Lázaro era o empresário dele?

Alberto Helena – ele era empresário, o empresário de todos os principais cantores e era associado a Record na venda dos tapes dos programas da Record porque naquele tempo não tinha Embratel, então os programas eram vendidos e enviados os tapes de avião para as outras praças. Aí os dois falavam “Helena você tá louco, esse cara é maluco, ele só vai criar problema...” e eu “não deixa comigo eu seguro as pontas por ele”. Porque a minha intenção era botar o Vandré no ar, segundo era ter um emprego, um contrato com a emissora que eu produziria o programa dele. Na época ele tinha lá o empresário dele, o Marcos Pereira, não o Marcos Lázaro, o Marcos Pereira que era Pernambucano e tinha sido Secretário da Cultura e era muito amigo do Aloísio Falcão. Eles vieram fugidos, lá quando o Arraes foi preso e tal, vieram pra São Paulo e esse Marcos Pereira tinha uma graninha boa e montou uma agência de publicidade dentro da Record e fez uma série de produtos magníficos, discos, todos eram de grandes artistas, produziam grandes discos e acabou se matando, ninguém sabe direito o porquê. Mas, o Marcos Pereira, passou a cuidar dos negócios do Geraldo Vandré, então as reuniões eram lá e tal. Aí o Vandré com a Megalomania dele, queria fazer... Foi o primeiro programa... Já isso quase matou o Paulinho de Carvalho (dono da emissora) do coração. Porque naquele tempo os vídeos-tapes eram aqueles quadriplex enormes, fitas enormes, que pra você editar tinha que editar como filme, tinha que cortar e colar os pedaços. E isso você pegava um rolo de duas horas de duração, você acabava transformando em meia hora, depois se quisesse gravar em cima, só podia gravar meia hora, não podia gravar mais, que eles reutilizavam, porque era caríssimo. Bom, conseguimos convencer o Paulinho fazer o primeiro programa musical editado. Era uma coisa trabalhosa, toda cheia de sofisticação e caro! Deixava o Paulinho doente... No fim o Paulinho aceitou a idéia deles, assinaram o contrato e vamos resolver com é que vamos fazer. Reunião no escritório do Marcos Pereira. Começa assim: Roberto Santos faz a parte do visual do programa; o Fernando Faro vai ser um dos diretores do lado do Vandré. Agora, o Paulinho de Carvalho exige que o Solano Ribeiro seja o Diretor pela Record.. E eu sentado ali ouvindo: terminou, aí eu, o Renato Correia de Castro vai ser o Assistente de Produção... “Escuta, e o boneca aqui? que montou tudo, que fui lá convenci os caras e de todos que estão aqui é o único que não tem contrato, ta todo mundo contratado, pô? Vai todo mundo tomar no...” E fui embora! Tentaram gravar o primeiro programa e foi uma cagada geral. Um dia chegam lá em casa Vandré, Solano, queriam que você participasse. “Tá tendo uns probleminhas aí na gravação, pra você cuidar lá dos velhos, a velha guarda, fazer os textos...”  “Eu vou, como é que é?”  “Tem que ser produção, aquela merda de sempre, ganhar uma graninha...” “Tudo bem, vamos lá, não tenho nada mesmo, tô a zero”, e fui fazer... Começou, era um parto da montanha cada seguimento a ser gravado. Os caras ensaiavam lá na casa da minha mãe. O Vandré, O Quarteto Novo, o Trio Marayá, os cantores convidados e tal. Ensaiava lá e depois gravávamos de madrugadas depois da meia noite, a gente gravava, pra você ter uma idéia...

Jeane Vidal – Nessa época era no Paramont?

Alberto Helena – Não, era no teatro Record da consolação. Aí aquele teatro lotado, você acredita, de madrugada de gente para assistir. Expectador pra assistir a gravação. E a gravação era torturante, não tinha fim, não acabava. O Vandré criava mil e oitocentos problemas por segundo. Era o texto que ele queria reescrever, era a luz que ele não gostava, era a maquiagem, era o enquadramento, tudo que você pudesse imaginar. Bom, nós conseguimos. Gravamos um, gravamos dois, era uma coisa de passar a madrugada inteira gravando. Teve um programa do qual participou o Ataulfo Alves. Ataulfo Alves era já velho na época, morreu pouco tempo depois. O Ataulfo chegou do Rio com a malinha dele, nem foi para o hotel, já foi direto lá pra minha casa, lá pra casa da minha mãe na Avenida Brasil, pra participar do ensaio. Ficou lá a tarde inteira, saiu de lá fomos jantar e fomos direto para o teatro pra gravar. Começamos gravar lá pelas 11 horas, meia-noite. Já era umas 3 horas da manhã e o velho lá de pé, ele já estava a mais de 45 minutos, porque tinha o cenário, tinha a parte de cima, uma tapadeira assim, aí de lá descia um convidado, saia de lá, descia uma rampa até chegar no palco mesmo onde estava o Vandré. Ele estava de pé, não tinha nem lugar para sentar, ele já estava a 45 minutos, sem falar nada, ele era de uma elegância! E como você gravava tapes, não era uma seqüência, você podia gravar um tape antes depois o outro, você ia editar mesmo. Lá para umas três horas da manhã o Solano, eu ficava na platéia, e o Solano lá dirigindo no palco. O Solano desceu, chegou pra mim e  falou “Helena toca pra mim que não agüento mais esse cara, eu vou tomar um melhoral”

Jeane Vidal – Ele estava falando do Vandré?

Alberto Helena - Do Vandré. O Solano era plácido, sabe? Um sereno lago azul, sempre foi. Eu falei tá bom e subi. Ele tinha que gravar um monólogo e ele não acertava. Nada estava bom. E repetia, e não gostava, e repetia de novo e gravava de novo. E tinha platéia, um monte de gente na platéia e mais quatro ou cinco câmeras. Aí eu preocupado com o Ataulfo lá, cheguei no ouvido dele: “Vandré vamos fazer uma coisa, isso aqui tá enrolado, vamos liberar o velho que tá lá 45 minutos de pé, ainda não foi em para o hotel. Gravamos a parte dele e depois nós gravamos”. Aí ele pôs o microfone na boca e disse assim: “Eu quero saber uma coisa, quem é que dirige esse programa é você ou é o Solano Ribeiro?” ahh, eu naquela época era pavil curtíssimo, eu estava com os papéis todos na mão, de roteiros, peguei o microfone e falei: É a puta que pariu seu filho da puta! E joguei os papéis nele, joguei o microfone nele e saí. Falei  “bom, tô despedido”, cheguei lá fui no barzinho, tinha um barzinho do lado, chamei o Solano: “Solano vai lá que já fiz merda”. Aí chegou o Marcos Lázaro que tava lá assistindo “Helena, isso agora vai dá um problema”. “Eu sei amanhã eu venho aí e pego minhas coisas” e fui embora. No dia seguinte cheguei lá, e na nossa salinha, que ficava lá em cima, no lugar do Solano, tava sentado o Vandré, e do lado dele de pé o Fernando Faro. “ô baixinho, tudo bem? Eu vou pegar minhas coisas” e nem olhei na cara do Vandré. Ele: “não vai me cumprimentar não?” -“eu não cumprimento filho da puta”. Começamos a discutir  “vamos brigar, vamos brigar” – Vamos brigar, desce que eu tô louco pra te encher a cara” Aí descemos as escadarias, e era assim: tinha a porta principal na Record, no prédio da Record ficava no lado do teatro, e antes da porta do lado direito tinha uma porta de madeira que dava no vídeo-tape e que tinha uma saída própria. Eu saí pela porta e o Faro do meu lado. Saí, na porta tinha aquele monte de gente pra pedir autógrafo, ficava lá na porta da Record dia e noite, era uma loucura. Atravessei pelo pessoal e fiquei ali no meio fio esperando ele sair pela porta. De repente eu sinto um soco na cabeça por trás, eu olho é ele que tinha saído pela porta do vídeo-tape, me deu um soco na cabeça e entrou correndo pra dentro do vídeo-tape. Puta! Mas eu queria matar o desgraçado! Aí fiquei ali do lado daquele barzinho da Record com o Faro tentando me controlar, porque não dava pra eu entrar e bater nele lá dentro... Aí eu fiquei ali.... De repente vem o Vandré, no que eu vi que ele vinha vindo eu parti pra cima dele e aí comecei a dar uns cascudos, então ele virou de bunda assim pra mim e tentava tirar o cinturão, aí eu parei de bater e disse assim: “eu vou esperar você tirar o cinturão que você vai apanhar com ele e tudo”, aí ele não conseguia abrir o cinturão, eu dei mais uns dois ponta pés na bunda dele, fiquei com medo até de jogar ele dentro do vidro do teatro, e falei: “aonde eu tiver você saia, se eu entrar e você entrar, você sabe que vai apanhar, você é louco pra tuas negas e você também é mau-caráter. O que você fez foi por mau-caráter, tentou me desmoralizar diante de todos os caras aí ”. Falou no microfone, se fala isso pessoalmente, batia boca e ficava por isso mesmo, mas, foi uma coisa pensada, foi pra me sacanear diante de todo mundo. Aí nunca mais tive contato com ele, e o programa também logo depois acabou. Aí houve o negócio dele de “caminhando” a fuga, que segundo me contou a mulher dele naquela época se deu com o auxílio do então governador do estado Abreu Sodré. É eu não se isso tem fundamento ou não, mas segundo ela me contou, ele teria ido com o Sodré pra uma fazendo do Sodré em Araraquara...

Jeane Vidal – Pelo que eu li parece que ele ficou escondido na casa da viúva do Guimarães Rosa em Minas.

Alberto Helena – Essa história eu já não sei. Eu ouvi da mulher dele na época...

Jeane Vidal – Nessa época ele ainda era casado?

Alberto Helena – Ele era casado ainda com a....

Jeane Vidal – A Nilce Tranjan?

Alberto Helena – a Nilce. Ou estava separando dela, ou estava recém-separado, mas, no tempo que nós fazíamos esse programa eles viviam juntos.

Jeane Vidal – Ela está viva ainda?

Alberto Helena – Deve ser, não sei.. Nunca mais soube dela, ela era uma moça muito bonita, inteligente, também não agüentava mais ele! E ela me contou isso, que ele foi com o Abreu Sodré para uma fazenda em Araraquara.  De lá ele pegou um aviãozinho e foi para o Paraguai e do Paraguai ele foi... Enfim. Ele fez durante um tempo antes do festival, a Rhodia fez um show, uma turnê pelo Brasil, um show caríssimo, era ele, acho que o Paulo Autran, eu não me lembro muito bem como é que era, eu sei que era um esquema muito caro, uma produção muito cara... Aí ele fez esse show e o sucesso de “caminhando” extraordinário.

Jeane Vidal – Eu li uma entrevista do Jair Rodrigues, que ele diz que qualquer um podia cantar “caminhando”, menos o Vandré, era ele cantar e os militares iam atrás dele.

Alberto Helena – É verdade. Aquela censura era ridícula. Primeiro era trágica, qualquer censura é trágica, mas era ridícula porque ela não tinha nenhum critério, cometiam cada besteira, faziam cada bobagem, coisa sem sentido, censurava o que não podia...

terça-feira, 3 de maio de 2011

Entrevista com Alberto Helena Júnior (Jornalista e Comentarista Esportivo) - 1ª Parte




Alberto Helena - O Vandré é o seguinte: O Vandré ele começou fazendo música romântica, e na verdade ele se orgulhava muito de ser bom cantor...

Jeane Vidal – A princípio ele só compunha?

Alberto Helena - Não, ele começou cantando, depois começou compor.

Jeane – Ele gravou um disco com imitações do Francisco Alves e  Orlando Silva, inclusive foi financiado pela mãe dele.

Alberto Helena – Eu não sei... Então ele começou assim, começou a compor música romântica, isso antes do grande movimento da MPB. Aí ele... Primeiro, a grande participação dele foi no l° festival da Música Popular Brasileira em 65, que foi na Excelsior, não na Record. Ele defendeu uma música do Chico Buarque, uma marcha rancho, se não me engano, ele com a Tuca, que era uma cantora que cantava com ele, o que a gente chamava de marcha do João XXIII, que era nova mão, pé no chão e tal né... Naquela época fervilhava a questão política, o público jovem, o pessoal era muito de esquerda e achava que aquela música era um pouco “cristiana” demais (risos). E o Vandré de repente saiu dessa linha e entrou na linha da música de protesto. Porque isso aconteceu assim: é preciso que você tenha, pelo menos se não tiver, uma visão do contexto da época, eu estou falando do começo dos anos 60.  A música brasileira ela se definiu como tal quando ela ganhou característica como música brasileira nos anos 30, final dos anos 20, dos anos 30 até mais ou menos, metade dos anos 40, fim da guerra. Nesse período, que havia uma noção de nacionalidade muito grande, forte, no Brasil, com a ditadura Vargas e tudo mais, a música brasileira ganhou um perfil, ganhou uma cara, uma característica e tal, com o choro, samba, as marchinhas de carnaval, as serestas, várias modalidades, mais a música folclórica do nordeste, do Rio Grande do Sul, enfim, ali ela ganhou uma característica, e o samba era o gênero principal, era o mais característico, principalmente o samba carioca. Então, a partir de 45, depois da guerra, começa  a grande influência americana, a influência através dos Estados Unidos. Então o que fazia sucesso nos Estados Unidos rebatia aqui, então podia ir desde o Jazz, até o mambo, o bolero, as músicas caribenhas e tal que faziam sucesso lá, através da política da boa vizinhança lá de Hollywood, dos filmes, musicais, etc e tal, e das gravações, rebatia no Brasil, e porque houve uma grande imigração do europeu para o Brasil durante a guerra, também as músicas de outros, música italiana, música espanhola, música francesa, os hábitos mudaram. O que antigamente era um cabaré virou uma boate no estilo bem francês. Então foi mudando essa característica da música e ficou uma coisa muito difusa. O samba virou sambalado ou sambolero, como dizia Ari Barroso. Ele reduziu o andamento pra ser ouvido e dançado em boate e tal, os cantores foram perdendo o potencial da voz, passou a ser uma coisa mais sussurrada, então, aí era o império da breguice. Quando surge a bossa nova no final dos anos 50, começo dos anos 60 e que vem com essa idéia de fazer uma música mais refinada, baseada no Jazz, o jazz americano, principalmente o cool jazz, o jazz mais de gabinete, mais de trio,  quartetos e tal, e isso criou a bossa nova. O João Gilberto fez uma releitura daquela música brasileira dos anos 40, e isso prevaleceu. Mas aí surgiu com um grande movimento, movimento dos jovens, mas não tinha muita penetração popular. Aí quando no começo dos anos 60 cresce a questão política no Brasil, a luta entre esquerda e direita e os jovens muito participantes, muito militantes, universitários e tal, a bossa nova começa ser questionada como sendo uma  música de  classe média alta, distante do povo, música de apartamento com o se dizia, um banquinho, um violão, a coisa muito intimista que não tinha o poder de... E agia na época a idéia de que tudo, todas as artes, teatro, cinema, música, enfim, deveria fazer parte desse movimento político pra ajudar no caminho da evolução, da conscientização do povo, porque se dizia o seguinte: o povo é alienado, precisa desalienar, é preciso dar consciência política a esse povo, mostrar o que é o lado bom e o lado ruim. Então nesse processo a música popular entrou pra valer muito mais, porque ela era mais poderosa que o cinema, por exemplo, nacional que os recursos eram pobres em relação ao cinema americano, e mais do que o teatro que o povo brasileiro  não tem o hábito de ir ao teatro e a música, no entanto, ela tinha esse poder, esse canhão, ela se espalhava e atingia as grandes massas. E começou então...  Houve um racha dentro da bossa nova, Carlinhos Lyra, a Nara, eles se aproximaram dos compositores do morro, os compositores populares eram o  Zé Keti, Luis Carlos Salgueiro, toda aquela turma do Rio de Janeiro e começaram a criar aquilo que depois começou a se chamar de MPB e que foi desencadear nos festivais e tal e que eram uma coisa mais flamante que a  bossa nova, mais comunicativa, com grande público e que usou a televisão que era o grande instrumento de divulgação para mandar essa mensagem. E o Vandré reinou nesse período como um dos autores... Porque aí, isso tudo faz parte do movimento criado pelo Centro Popular de Cultura, que era no Rio de Janeiro, o CPC, lá no Rio e aqui em São Paulo. Aqui era o Chico de Assis que era o teatrólogo, passou também a fazer música, e música nessa linha. Eu mesmo fui um dos primeiros a fazer música de protesto, o Geraldo Vandré com o Geraldo Cunha. Em 61 fiz um samba, fizemos alguns, mas um deles acabou tendo relativo sucesso, principalmente lá no Rio de Janeiro, era “eu não sou do morro” (eu não sou do morro não, mas é que o morro é de corpo, alma e coração....)

Jeane – Você chegou a gravar?

Alberto Helena - Foi gravado pelo Taiguara, pelo Geraldo Cunha e por um outro cantor que tinha aqui em São Paulo, Hugo não sei o que lá, eu não me lembro o nome... No Rio ela tocou bastante com a gravação do Taiguara. Bom, mas aí, então foi essa febre, da música de protesto, todo mundo entrando, todo mundo não, mas o grupo, principalmente o Vandré, ele era a grande marca...

Jeane – O Chico Buarque também?

Alberto Helena – O Chico, ele na verdade ele fazia mais crônica social do que música de protesto. Ele foi fazer mais música de protesto depois do golpe militar, depois do AI-5, foi em 68, o golpe foi em 64, a partir de 68 foi quando ele começou a fazer, inclusive com aquele pseudônimo Julinho de Athaíde, e o Chico partiu pra essa... Inclusive em 67, 68 a discussão que havia entre o grupo do Gilberto Gil, o grupo dos baianos, Gil, Caetano, e o a turma do Chico é que o grupo dos baianos acusava o Chico de não ser crítico suficiente nas músicas, que ele era muito romântico, era muito lírico, vamos dizer, pra época, mas depois o Chico foi muito mais incisivo e tudo mais. Mesmo porque o Chico, de todos eles, era o que tinha melhor preparo cultural, intelectual, acadêmico, por conta até do pai dele que era um grande pensador... Mas enfim, então nessa virada o Vandré que era um cantor de música romântica passa a ser um militante da música.

Jeane-  O que hoje ele nega não é? Ele diz que a intenção dele nunca foi política.

Alberto Helena – É... Bom... A gente não pode entrar na cabeça dos outros... Mas, não era o discurso dele na época, porque foi esse o período que a gente conviveu muito. Mas ele tinha bom... Ele tinha pretensões que, vamos dizer assim, ultrapassavam a simples mensagem política revolucionária. Ele tinha uma preocupação de ordem estética cultural que a maioria dos que faziam este tipo de música não tinha, Carlinhos Lyra, o Sérgio Ricardo que era outro desse movimento. Ele queira algo mais, isso era patente. E quando ele fez “Disparada” foi realmente uma coisa... Eu acho que foi a música que o cara atingiu a perfeição, de acordo com os objetivos dele. Eu nunca me esqueço da noite que ele cantou pela primeira vez pra nós. Porque era assim: isso foi em 66, o Festival da Record, que foi o festival da Banda, Disparada, o festival que lançou o Paulinho da Viola, Gilberto Gil, Caetano... Então ali, por exemplo, ele não era compositor no sentido comum, porque ele não era... Tocava violão mal e tal, mas não o cara de pegar e... Tanto é que quem fazia todos os arranjos era o Hilton Acioli que era o parceiro dele, que na verdade traduzia em música o que ele estava querendo fazer. Mas ele tinha a genialidade, ele era um gênio nesse negócio. A música é dele, não era do Hilton Acioli, você entende? O Hilton Acioli deu o formato, você entende? A música nasceu dele, assim como a letra era só dele. E nessa época, o festival era o seguinte: tinha que ser música inédita pra ser aceita. E tanto é, que todos eles, cada um estava fazendo a sua música e era segredo, cada um mantinha segredo...

Jeane – Só se sabia quem era o compositor quando saía o vencedor?

Alberto Helena – Não, o que não se sabia... Era assim: não se divulgava a música antes dela ser apresentada pela primeira vez no festival. Então não podia ser gravada, não podia ser cantada em lugar nenhum e tal. Mas na verdade se conhecia os compositores porque eles eram apresentados quando a música era apresentada.

Jeane – Os compositores só eram revelados quando era escolhida a música vencedora?

Alberto Helena – Não.  Esse, de 66, como foi o de 65, como foi o de 67 e 68 era assim. Inclusive o de 66 eu fiz parte da produção do festival. A direção era do Solano Ribeiro e eu era o produtor. Fazia os textos, e toda a fase de escolha das músicas foi feita na casa da minha mãe. Meus pais tinham uma escola ali na Avenida Brasil, onde tem hoje o laboratório Fleury, é um casarão grande que tinha lá, e na parte debaixo era a escola, escolinha maternal e pré-maternal e tinha um barracão lá no fundo, onde as crianças faziam judô, tocavam música e tal. Tinha piano, instrumentos musicais e a gente... Toda fase de escolha... Qualquer um podia se inscrever... Qualquer pessoa ... Então a escolha, tudo foi feito lá. Eu tenho até a foto... O Cesinha (César Camargo Mariano) no piano e as partituras que os caras mandavam, começava e tal.. O júri ali presente... Essa pode jogar fora, não, essa não... E assim foi feita a escolha. Mas a gente não conhecia quais as músicas que os caras iriam apresentar.

Jeane – Sabia quem era o compositor, mas não sabia qual era a música, é isso?

Alberto Helena – Exatamente! Porque esses caras já tinham sido escolhidos de antemão né, eram profissionais e tal, que iriam apresentar as músicas para serem aprovadas. Aí, uma noite... e a gente queria saber...  O Chico até a gente conhecia “A Banda”. O Vandré fazia mistério com a música dele... No fim ele sentou num carrinho dele, um fusquinha que ele tinha, na frente do Juão Sebastião Bar, ele parou o carro... Estava eu, Solano e acho que o Luiz Vergueiro,  e ele cantou no carro a música “Disparada”. Aquilo foi...

Jeane – Se não me engano o Zuza no livro A Era dos Festivais, relata esse episódio.

Alberto Helena – É eu contei isso pra ele.

Jeane – Ele chama todos vocês para ouvirem a música, não é isso?

Alberto Helena – Não, não chama... A gente saia toda noite juntos tal, nós vivíamos na noite, boemia direta. E estava sempre juntos, e aquela noite nós estávamos todos juntos e não sei pra onde que a gente ia... E ele cantou, e foi um arrepio geral! Foi uma coisa! Não dá, quando uma coisa é nova, ela é nova quando é nova, depois que todos os elementos que ela apresentou de novidade já foram reincorporada no tempo e várias outras, por exemplo, a sua geração não vai ter o mesmo impacto, aquilo já tá diluído em outras, então você já não tem a mesma noção, mas aquilo foi porque ele conseguiu fazer o seguinte: o que é a música mais popular, mais até do que o samba? É a música sertaneja, porque ela está presente no nordeste, no centro-oeste, no Rio Grande do Sul, em São Paulo, Minas, no Rio, interior do Rio... Essa é a mais abrangente. Das músicas nacionais a mais abrangente é a sertaneja, é a do sertão, que tem lá cada uma sua característica. Ele conseguiu pegar isso, e que era a música que menos tinha sido trabalhada urbanamente, quer dizer, ela permaneceu até aquela época, depois é que veio essa coisa do sertanejo, eles falavam que era música sertaneja naquele tempo, agora é música caipira. E que deram esse tom mais urbano, porém brega. Ele não, o que ele queria... Porque a música caipira naquela época era encarada como brega, porque ela era muito primária, tirando João Pacífico, Menino da Porteira, essas coisas todas, a grande maioria era coisa pobre. Ele pegou o espírito de Guimarães Rosa e trabalhou essa linguagem, pegou Guimarães Rosa e com a música sertaneja, o ritmo e a melodia típica, ele juntou os dois e conseguiu um efeito extraordinário. Lembra aquela seleção holandesa de 74 que o carrossel holandês foi um fenômeno tático no futebol que nunca mais se reproduziu, só aconteceu naquele período. O “Disparada” nunca mais se reproduziu, ele não fez uma escola, ele ficou suspenso no ar como uma obra única. Poderia ser um caminho, mas que ninguém alcançou. Depois tentaram, Almir Sater chega um pouco perto, tem uns caras que...  Mas o “Disparada” ficou sozinho. E mais, por que aí ele junta o Trio Marayá pra fazer o vocal de apoio e mais o Quarteto Novo que era outra coisa que foi ele quem criou, com músicos extraordinários, talvez os melhores que o Brasil já tenha produzido, cada um com seu instrumento. Com um som inteiramente novo, inclusive com uma queixada de burro que o Airto Moreira, isso foi idéia do Airto Moreira mesmo, que usou, e que tinha um efeito não só musical importante como visual, uma coisa absolutamente nova. E o Quarteto Novo era um time de craques, tinha o Hermeto Paschoal que era um gênio, o Heraldo Monte, o Théo de Barros, que era um excelente violinista, enfim, um som inteiramente diferente, uma coisa nova, sensacional, tão sensacional que pela primeira vez e única na história do Brasil, neste país, o cidadão comum discutia estética cultural, discutia cultura nos botequins, nas padarias, na porta de jornal, porque, o Brasil se dividiu entre Banda e Disparada. E os argumentos que você ouvia, eram argumentos de especialistas do povo: “mas, a Banda é mais brasileira, é mais romântica, é mais o nosso povo, é uma volta às marchinhas de antigamente...”  O outro dizia: “mas, Disparada é uma criação nova, é um avanço...” quer dizer, o povo discutindo cultura... Nunca houve isso antes, nunca houve depois. Pra ver a força desse negócio! Criou-se a turma dos Bandistas e a turma dos Disparadas, era torcida como Corinthians e Palmeiras, Flamengo e Vasco, essas coisas... E quando terminou a votação deu Banda. Banda em primeiro e Disparada em segundo. O Paulinho de Carvalho que era o dono da emissora, ele ficou “pô, os caras vão quebrar o teatro, não é justo pô” Porque ele também estava envolvido naquilo, torcendo, e olha, ele não gostava do Vandré como pessoa, ninguém gostava do Vandré como pessoa, só o Faro (Fernando Faro). Aí o Paulinho: “eu acho que tem que dividir esse prêmio”. Chamou o Júri, o júri foi reunido e o Chico Buarque foi o primeiro a dizer “não, eu não acho justo, Disparada não pode ficar em segundo lugar”, e aí foi resolvido dividir o prêmio, primeiro lugar para os dois.

domingo, 1 de maio de 2011

A primeira Entrevista

A primeira entrevista que realizei para o livro foi uma indicação do próprio Vandré. Eu já havia feito os primeiros contatos com ele quando em uma tarde ele me telefonou e disse: "Jeane, tem uma pessoa que pode ajudar muito no seu trabalho, ele conhece toda minha vida, vai saber falar de mim melhor do que qualquer outra pessoa. É o Alberto Helena Junior, eu não tenho o telefone dele e também não sei por onde ele anda, mas,você é uma menina esperta, vai conseguir encontrá-lo".   Fiquei surpresa com o seu gesto , quem diria, o próprio Vandré indicando fontes que me ajudariam a reconstruir a sua história. Quando desliguei o telefone a primeira coisa que fiz foi jogar o nome do Alberto Helena no google, e foi mais fácil do que imaginei. Lá estava o email dele para quem quisesse ver. Entrei em contato e o retorno foi imediato. Agendamos a entrevista e, diga-se de passagem, foi uma das mais longas e produtivas que eu realizei. Ficamos horas conversando sobre o Vandré, os festivais, a ditadura e tudo que compunha o cenário da época. É muito enriquecedor ouvir pessoas que foram testemunhas oculares da história. Uma coisa é você conhecer a história contada nos livros, e outra é vivenciá-la, ser parte integrante dessa história,  um personagem que presenciou  fatos reais, concretos, sem “cortes”, e sentiu na pele todos os acontecimentos da época.
Costumo dizer que nasci na época errada, pois, adoraria ter vivido esse período da história do nosso País, período que considero o mais rico em todos os aspectos, pois foi na década de 60 que ocorreram as maiores transformações políticas, culturais e comportamentais, época de grandes  acontecimentos que marcaram o século XX.  
       O ano de 1968 é o que melhor representa essa década. Vejamos por que:

Fatos marcantes de 1968 no Brasil e no mundo*

Antes de Maio
 
16 de janeiro - Estréia no Rio a peça "Roda Viva", de Chico Buarque de Holanda, dirigida por José Celso Martinez Corrêa

17 de janeiro - O cantor Roberto Carlos apresenta a última edição do programa "Jovem Guarda", no Teatro Record, em São Paulo

30 de janeiro - O Exército vietcong inicia a chamada Ofensiva de Tet, invadindo 34 capitais de Província vietnamitas e a cidade de Hue

15 de março - São desapropriados, em Cuba, os últimos estabelecimentos privados --bares, livrarias e oficinas

16 de março - Militares norte-americanos massacram cerca de 150 civis vietnamitas na aldeia de My Lai, no Vietnã

28 de março - O governo da África do Sul apresenta três leis que culminam no apartheid

4 de abril - É assassinado a tiros, aos 39 anos, o pastor negro Martin Luther King. No dia seguinte, ocorrem conflitos raciais em 125 cidades, e a morte de 46 pessoas em Washington.

5 de abril - É lançado, na Tchecoslováquia, o programa de reformas políticas que ficou conhecido como Primavera de Praga

10 de abril - Caetano Veloso participa da "Noite da Banana" no "Programa do Chacrinha" (Rede Globo)

17 de abril - 68 municípios são considerados área de segurança nacional. Com isso, ficaram suspensas, nessas cidades, as eleições municipais de novembro

28 de abril - Cerca de 60 mil manifestantes protestam, no Central Park, em Nova York, exigindo o fim da Guerra do Vietnã (1959-1975)

30 de abril - Estréia na Broadway o musical "Hair"

Depois de Maio

5 de junho - É assassinado, aos 42 anos, o senador e candidato à Presidência dos EUA Robert Kennedy

16 de junho - A polícia francesa retoma à Sorbonne, até então ocupada pelos estudantes

26 de junho - É realizada, no Rio de Janeiro, a "Passeata dos Cem Mil", reunindo principalmente estudantes, intelectuais, artistas, padres e mães, autorizada pelo governo federal.

18 de julho - Integrantes da peça "Roda Viva" são agredidos no teatro Ruth Escobar, em São Paulo. A ação foi atribuída a integrantes do CCC (Comando de Caça aos Comunistas)

12 de agosto - É lançado, com um show em São Paulo, o disco-manifesto "Tropicália ou Panis et Circensis", de Caetano Veloso e Gilberto Gil, com convidados

21 de agosto - A Tchecoslováquia é invadida por tropas do Pacto de Varsóvia, em represália à "Primavera de Praga"

24 de agosto - A França explode, no oceano Pacífico, a sua primeira bomba de hidrogênio

3 de setembro - O deputado federal Márcio Moreira Alves, do MDB (atual PMDB), discursa contra as Forças Armadas na Câmara dos Deputados, em Brasília

2 de outubro - Confronto entre estudantes da Universidade Mackenzie e da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da USP, em São Paulo, mata o estudante José Guimarães

10 de outubro - A Assembléia Nacional da França realiza reformas no sistema educacional do país

12 de outubro - Cerca de 1.200 estudantes são presos em Ibiúna (São Paulo), quando realizavam clandestinamente o 30º Congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes)

5 de novembro - O republicano Richard Nixon (1969-1974) é eleito presidente dos EUA

21 de novembro - O presidente Costa e Silva aprova a lei de censura de obras de teatro e cinema. É criado também o Conselho Superior de Censura

22 de novembro - Chega às lojas, nos EUA, o "Álbum Branco" dos Beatles.

13 de dezembro - Entra em vigor o AI-5 (Ato Institucional nº 5), que suprime as liberdades democráticas no Brasil. Com o AI-5, o Congresso Nacional é colocado em recesso e vários parlamentares têm seus mandatos cassados.

     Tenho um verdadeiro fascínio por esse período da historia do Brasil, quando leio a respeito é como se me transportasse para a época, por isso, não me canso de ler e escrever sobre o assunto, é a forma que encontrei de “vivenciar” esses acontecimentos e sobretudo, de compreender o Brasil de hoje.

     Mas, voltemos a entrevista. No próximo post disponibilizarei parte da entrevista que realizei com o Jornalista Alberto Helena Junior. Digo parte porque ela é muito extensa, então para a leitura não se tornar cansativa, a dividirei em 3 posts.

Espero vocês.

*Fonte: http://www1.folha.uol.com.br

sábado, 16 de abril de 2011

Entrevista com Sergio Ricardo (Cantor, Compositor e Cineasta)





Jeane Vidal – Como era a sua relação com Geraldo Vandré?


Sérgio Ricardo - Eu já conhecia o Geraldo antes (1967) muito antes de Disparada. Ele trabalhava comigo, a gente fazia o mesmo programa de rádio do Valdemar Henrique, um compositor famoso do passado... O Valdemar Henrique tinha um programa de rádio e ele fazia questão de apresentar os novos, na época. E os novos eram Luizinho Eça, Lincoln, que acabou virando pianista de grupo e tal , eu o Vandré e mais algumas pessoas. O ano disso devia ser 50 e tantos, 58, 59.... antes da Bossa Nova, antes de tudo isso...Foi bem no comecinho, a gente era garoto... eu nasci em 32... em 58 eu tinha 16, 17 anos, não então não é 58, foi 59, 60...


JV – Oficialmente ele começou cantar mesmo em 1960, quando gravou o 1° LP...


SR - Então, antes disso um pouco, devia ser o ano anterior ele tinha feito esse trabalho... Bom e a partir daí a gente ficou assim... mas não era bem amigo, a gente nunca foi íntimo, entendeu? Mas a gente se conhecia, a gente se respeitava, fazia cada qual o seu trabalho. Eu era pianista e cantava, já tava cantando, aí comecei a gravar, eu comecei a gravar primeiro que ele, mas, não foi ainda com a bossa nova. Ele gravou que disco primeiro?


JV – O título era Geraldo Vandré e ele gravou aquela música “Fica mal com Deus.” Foi a música que foi lançada nesse disco...


SR – Fica mal com Deus quem não sabe amar... eu gravei essa música no meu...


JV – a gravadora era a Áudio-Fidelity..


SR – Que fez a gravação dele?


JV – Isso, que fez a gravação dele...


SR – Exatamente, é provável... e eu sei que na época a gente começou a se separar, porque esse programa guilhotinava um pouco esse grupo, mas depois cada um foi pro seu lado. Esse Luizinho Eça virou um sucesso, ficou como pianista de boate e tal, acompanhava os grandes cantores e tal... Eu partir para fazer um outro trabalho como compositor. E o Vandré cantava aqui e ali e tal... E eu só vim saber dele depois, muito mais tarde, com a Disparada.


JV – Mas vocês fizeram alguns projetos no cinema juntos, não foi?


SR - que eu me lembre... é bom você me lembrar isso, porque eu não me lembro....


JV – Na época foi lançado o filme “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, a peça “Calabouço”.... E ele fez a trilha sonora de alguns filmes do Roberto Santos.


SR – É, ele fazia de uns filmes e eu fazia de outros. Eu comecei fazendo do “Deus e o Diabo na Terra do Sol” logo em seguida ele fez pra o Matraga.


JV – Não eram juntos então? Eram projetos separados?


SR – cada qual tinha um trabalho separado do outro, mas tínhamos uma identificação pela coisa do CPC, eu não sei nem se ele fez parte do CPC em algum lugar...


JV – Teve uma época sim, que ele fez parte, inclusive é citado o nome de vocês dois no CPC...


SR – No Rio?


JV – Não, aqui em São Paulo.


SR – então já foi depois do CPC do Rio...


JV – Só que ele não permaneceu muito tempo porque ficou irritado, achava muito panfletário e acabou saindo.


SR – É verdade. Eu também. Ele teve o mesmo problema que eu. E aí cada qual saia fazendo suas coisas com muita semelhança, né? Com muita, muita... era uma coisa meio paralela...


JV – Vocês tinham uma afinidade?


SR – é, tinha uma afinidade por causa da posição política de cada um, e acabamos juntos em várias coisas. Em Sofia, na Bulgária. Eu fui convidado oficialmente pelo comitê daqui que tava decidindo quem ia e quem não ia. E ele, ele conseguiu uma permissão pra ir também ao festival de juventude. Foi por conta própria, era isso que eu queria dizer. Parece que foi por conta própria não foi um convite especial. E lá nós nos encontramos ali, então a gente já recomeçou uma relação, inclusive eu queria usar o grupo que ele tinha levado, que era o Trio Marayá e ele não me permitiu usar o Trio porque eles já estavam um pouco meio confusos.


JV – Eles brigaram pouco tempo depois.


SR – É porque o Trio Marayá queria me acompanhar na música que eu fiz pro Guevara...


JV – Você e o Vandré fizeram suas músicas com o mesmo tema, não é? As duas tinham o mesmo título “Che Guevara” não era isso?


SR – Pois é, eu não me lembro bem da música dele, sinceramente...


JV – A música dele chamava-se “Che”. Eu li uma entrevista dele da época - quando ele voltou desse festival - nela ele comenta que vocês eram os únicos brasileiros que estavam lá e que suas músicas tinham o mesmo tema.


SR – Eu sei que não houve premiação propriamente. Andaram dizendo aí que eu tinha ganhado prêmio de letra e ele tinha ganhado prêmio de... Parece que ele ganhou sim prêmio de intérprete, o melhor intérprete.


JV - Ele veio sim com um troféu, pelo menos é o que diz os jornais da época.


SR – Me atribuíram um prêmio lá de.. Mas, não tinha prêmio, eu fui considerado a melhor letra, mas, não tinha prêmio de melhor letra. Mas enfim... E ali a gente fez uma relação também que não foi muito positiva porque a gente acabou se desentendendo um pouco, porque ele já estava um pouco irracional com as coisas, um pouco nervoso e... Ficou um pouco alijado, digamos, da delegação. Mas fez uma apresentação bela, fez uma coisa bonita, ele e o Trio Marayá fizeram uma coisa muito bonita. Na volta a gente se reencontrou aqui, eu não sei se foi antes disso ou depois disso, já teria passado a Bossa Nova, a Bossa Nova já tinha até acabado com o seu auge e eu já estava na música de protesto com ele. Os dois na verdade, os mais fortes nessa linha de trabalho. Ele de um lado e eu de outro, e uma vez fizemos um show juntos, isso eu não sei se você sabe. No Cave, na boate Cave.


JV – Essa boate era aonde, aqui em São Paulo?


SR – Aqui em São Paulo. Uma boate até que ocorreu uma coisa muito curiosa que eu tinha vindo recentemente da Europa, isso foi depois de 64, foi perto do festival, foi depois do festival da “Banda” e a Disparada, isso. Eu tinha voltado da Europa e íamos fazer, o Chico de Assis parece aqui, que produziu um show pra gente fazer no Cave, tinha até Hermeto Paschoal no meio da história e tudo. Nessa ocasião durante os ensaios eu pedi a ele o carro emprestado pra ir buscar a minha mulher no aeroporto que tinha acabado de chegar do Rio. Ele me emprestou o carro e na volta o guarda me parou pra ver esse negócio de documento, essas coisas e acabou rebocando o carro. Aí quando eu disse a ele: olha rapaz aconteceu uma coisa, e falei pra ele e ele disse: mas que malandro é você Sérgio, porque não deu uma grana pro guarda? Aí eu fiquei... eu não sabia onde enfiar a cara. Porque eu na verdade estava na Itália e lá se você tentar subornar um guarda você é preso. Eu nem pensei nisso, tirei isso da minha cabeça. Quando eu voltei pintou esse problema e eu em vez de oferecer um dinheiro pro guarda, fiquei discutindo com o guarda, tentando convencer o cara e o cara esperando que eu oferecesse dinheiro né, Como eu não ofereci, ele disse: é meu filho o carro vai ser que rebocado. Aí poxa vida, se não fosse o pai do Vandré que tinha lá não sei que tipo de relação tinha com o poder, aí então conseguiu tirar o carro dele. Mas essa foi a coisa curiosa. Nós fizemos um show juntos, essa foi talvez a única vez que a gente se apresentou fazendo uma coisa juntos. O da Bulgária era um festival cada qual fazia sua música. Nesse mesmo ano acabamos fazendo o festival lá da Record, o festival do “Beto bom de Bola” que eles chamam. Aí ele fez uma música sobre chofer de caminhão...


JV – “Ventania”...


SR – Uma música bonita. Mas acho que não chegou a classificação final...


JV – Não.


SR – Como eu também. Ficamos de fora desse festival.

Eu acho que o Vandré tem uma importância pra mim muito grande. Ele era uma referência no sentido de saber que eu não estava sozinho fazendo o tipo de trabalho que eu fazia na época... nos anos 60. De um lado eu fazendo meu trabalho e ele fazendo do outro lado, dali a pouco aparece o Gonzaguinha, Trio Marayá, Trio não sei o quê, o Quarteto Novo e tal, a Marília Medalha, a própria Nara começou a cantar música de protesto enfim que é aquele pessoal que fazia... E ele e eu éramos as pessoas que tínhamos iniciado praticamente esse movimento dentro da música popular e, volta e meia, nos encontrávamos em portas de fábricas, em shows de estudantes, é.. Isso nós fizemos muito, coincidia nossa presença em vários desses lugares, embora não tivéssemos uma participação é vamos dizer assim de patota, nós nunca fizemos uma patota de ser ele e eu fazendo a mesma coisa. Não, cada um fazia o que vinha a cabeça, mas, ambos com uma identificação do trabalho do outro. E éramos chamados pelos estudantes, pelos trabalhadores, pelos camponeses e tal, nos trabalhos que eles faziam. A própria classe média tinha muitas instituições, sindicatos, eu me lembro de ter ido até Brasília pra um sindicato dos alfaiates, uma coisa estranhíssima... Chamavam-me pra ir nessas coisas e geralmente eram shows assim, quase que gratuitos. Alguns mesmo a gente não recebia nada, era pura contribuição mesmo, ideológica né. E fora disso eu gravei uma música dele que é “Fica mal com Deus” e... Ele cantava uma musica minha que eu não me lembro mais qual é, acho que é “o nosso olhar” uma coisa assim. A gente se respeitava muito e nosso trabalho se coincidiam muito, a gente estava nos mesmos festivais, nas mesmas confusões aí com o Dops com essas coisas. Eu não sei nem se ele teria sido chamado pra dar alguma declaração no Dops.


JV – O que eu li é que foi publicado em jornal, que o Coronel Òtavio Costa pedia a prisão dele.


SR – mas isso depois...


JV – depois de “Caminhando”.


SR – depois de Caminhando a barra pesou pra ele. Eu acho que se ele desse muita sopa pelo Brasil ele acabaria ou preso ou exterminado.


JV – Você chegou a ser chamado pelo Dops?


SR - Várias vezes.


JV – Mas você nunca saiu do País?


SR – não, eu quando saí, saí por conta própria. Eu me auto exilava às vezes. Logo depois do golpe eu fui pra Europa e só voltei pra esse festival de 67. Pensando que já estivesse acabado. Imagina você, que ingenuidade pensar que dois anos ou três anos...


JV – Estava só começando...


SR – No ano seguinte a minha volta pintou o AI-5 e aí foi pior. Segundo o Thiago de Melo eu fui mais sacrificado de todos, porque o pessoal saiu... Porque você se exilar é ótimo, porque, você entra pra um país e tem todo um campo pra trabalho. No meu caso não, desde a ditadura que eu venho comendo o pão que o diabo amassou né. Porque trabalhar no seu próprio país estando contra o regime é uma coisa complicada. Então minha situação foi que eu conseguia sobreviver com os shows de estudantes de norte a sul do país pelas universidades que me chamavam. O Vandré não, porque ele saiu andou fazendo as suas... Na Europa...


JV – Ele ficou 4 anos e meio exilado. Ele foi para o Chile, depois foi para a Europa...


SR – Mas fez coisas não é? Ganhou Festivais lá fora, parece, ou ganhou ou participou de festivais...


JV – Eu não me lembro, vou verificar... (Em 1972, ganhou no Peru um festival com a música “Pátria Amada, Idolatrada, Salve, Salve”, parceria com Manduka , filho do poeta Thiago de Mello)


SR – é bom verificar, porque isso aí eu soube, eu recebi essa informação, eu achei tão gostoso isso, fiquei oh que bom que ele tenha ganhado, tava preocupado, tinha saído notícias... Bom mais enfim posso estar enganado também. Pode ter sido um boato e não ter sido verdade. Mas andou fazendo coisas que foram respeitadas lá fora. Sei também de coisas que não agradaram em alguns países.


JV – Teve uma época que ele precisou sair do Chile porque estava se apresentando em programas de TV sem licença de músico e parece que lá é necessário uma licença para se apresentar, e ele não tinha. Foi quando ele foi pra Europa.


SR – Pois é. Essa é a minha contribuição pra tua matéria.


JV – Mas vocês também fizeram um programa juntos na TV Excelsior não foi? O “ensaio geral”?


SR – a gente se apresentava, mas não era junto, cada qual fazia o seu trabalho. Mas nos cruzávamos em várias coisas. No ensaio geral... Eu nunca fui ao Fino da Bossa, não sei se ele chegou a ir. Porque eu tinha, sem saber, tinha um sujeito que me detestava no fino da Bossa, e eu ficava achando que era a Elis Regina que tinha alguma coisa contra mim e não era. Era esse cara que não programava... E ela deve ter pensado que eu esnobava o programa. Ficou essa coisa, só mais tarde é que a gente veio a se falar e virar amigos e tal. Mas nesse mundo aí, nesse Show Busness tem muita confusão, muito mal entendido, muita injustiça.


JV – No Livro “ A Era dos Festivais” do Zuza (Homem de Mello), ele comenta que naquele episódio do festival do “Beto bom de bola” que a Elis e o Vandré foram os primeiros que solidarizaram com você, é verdade?


SR – Exatamente. A Elis foi a primeira a me dar um abraço. Acabei de escrever isso pra uma matéria no Globo que vai saí ainda. Ta fazendo agora 40 anos daquele festival e parece que eles vão fazer aí matérias. Pois é, nós fazíamos isso, estávamos em todas as coisas. Tinha reuniões, por exemplo, de estudantes, de Assembléias, de intelectuais que ele participava e eu também, e a gente estava sempre juntos nessas coisas. Nessas horas foi bonita a nossa relação, e ela continua sendo bonita até hoje, porque o dia que eu encontro com ele, a gente se abraça e... Porque a gente só se encontrava na hora da pesada, mas quando tinha aquela coisa pesada a gente tava junto, a gente se encontrava... Eram passeatas e coisas assim dessa natureza. Reivindicações de estudantes... Eu não sei se ele participava tanto quanto eu porque ele tinha suas indiosincrasias com algumas coisas e eu não tinha nada não, meu problema não era partido era a causa né, então os partidos me chamavam muito pra se filiar mas eu não quis me filiar a nenhum, como ele também não deve ter se filiado a nenhum também. E talvez aquela declaração dele tenha sido mal interpretada porque eu também não quis saber de partido nenhum só bem mais tarde é que eu virei sócio do PT. Mas, porque achava que finalmente houvesse aparecido um partido que viesse a condizer com a nossa luta. Mas... E acho que ele também.. Ou não, né? Não sei... Acho que ele nunca entrou pro PT.


JV – Eu fiz uma entrevista com ele recentemente. Nessa entrevista eu questiono em relação aquela declaração que ele deu à Rede Globo, e ele diz que na verdade houve uma montagem..


SR – Não é de se duvidar. Agora eu não entendo porque ele não canta. Porque não tem que vingar do brasileiro, porque não é por aí, eu acho que isso ta mesmo no desvio.


JV – Quando ele estava no Chile os pais dele foram buscá-lo porque ele estava sofrendo de depressão, foi quando então eles negociaram a volta dele para o Brasil. Ele estava tendo crises fortes e aí quando ele voltou e aconteceu tudo aquilo, ele não quis mais cantar no Brasil. Ele acha que o povo fez dele uma vítima do regime, quando não era nada daquilo. De todos os artistas que foram para o exílio ele foi o único que ao retornar não retomou sua carreira artística. Os outros continuam aí, Chico Buarque, Caetano...


SR – Agora ele, no fundo no fundo ele tem certa razão, porque a gente ficou meio estigmatizado, eu e ele, porque é o seguinte: porque o grande problema é que quando pintou a ditadura e que veio uma nova... Os festivais revelaram os artistas, nós já éramos os artistas que fazíamos a coisa de protesto, a coisa política... E os outros que vieram começaram também a querer fazer, entrar na nossa, não porque queriam entrar na nossa coisa, mas queriam fazer aquilo que a gente estava fazendo, que era uma música de contribuição, de reivindicação.


JV – E até porque era o que chamava o público não é?


SR – Exatamente. Então, logo que veio o AI-5, eles começaram a se organizar de forma empresarial esses artistas e continuaram... Não é nada condenatório isso, não estou falando isso como uma coisa de condenar, é que eu o Vandré e alguns outros, o Théo de Barros, o próprio Hermeto Paschoal e outras pessoas que estavam na nossa leva, ficaram inteiramente marginalizados porque nós continuamos a ser aqueles românticos, entendeu? Essa é a grande diferença que fez com que a gente virasse dinossauros, entendeu? E os novos permanecem até hoje, você vê que é Chico Buarque, que é Caetano Veloso, Gilberto Gil, não sei o quê... O Chico manteve uma bandeira, segurou a bandeira. Os outros partiram para Tropicálias, partiram pra coisas e tal, meio nebulosas em termos ideológicos e na verdade a coisa ficou mais na mão do Chico. E eu fazendo as coisas como o Chico fazia também, de protesto não sei o quê, continuei fazendo, mas só que eu não estava embandeirado naquelas organizações de... a coisa empresarial eu num... Como o Vandré teria sido também. Eu e ele sempre fomos meio a palavra certa é meio “porra-loucas”, no sentido de organização da própria carreira. Conclusão: viramos dinossauros. Se ele tivesse insistido teria ficado na minha posição, ou seja, no ostracismo. Primeiro teria feito um sucesso numa reaparição, mas, logo em seguida teria sido esmagado. Teria difícil pra ele fazer, chegar a fazer um espetáculo, seria difícil, ele iria encontrar muita resistência. Então... Mas isso talvez nem tenha passado pela cabeça dele, ao contrário, ele poderia até achar individualmente que se voltasse a fazer ia ser um sucesso extraordinário. Seria, num primeiro momento, mas se ele não viesse a se organizar como os outros empresarialmente, que eu acho que dificilmente ele aceitaria... Rebelde como eu também... então ele acabaria como eu estou, numa situação que luto, luto, luto...e não acontece. Entendeu? E não sou superado, porque se fosse uma questão de ter ficado datado o meu trabalho e ter ficado uma coisa... Não, eu tô fazendo coisas que... Chico Buarque outro dia esteve em minha casa querendo música pra botar letra. Entendeu? Chegou lá achou uma música maravilhosa, levou, ele achou maravilhosa, levou a música pra fazer letra, quer dizer: não estamos superados, porque o que veio depois da gente em termos de músicas, não nos colocou como pessoas superadas, como artistas superados.


JV – O interesse comercial hoje prevalece, não é?


SR – Prevalece. E cada vez vai piorando, no sentido de qualidade. A ponto de vender o que anda por aí. É uma bagunça, a música virou um objeto descartável insuportável. De alguma maneira com um sucesso lá em cima. Mas, enfim, talvez até tenha-se poupado, sem querer ele poupou a vida dele, por uma determinação de um sofrimento que ele viria a ter...


JV – Eu perguntei a ele em que momento ele decidiu que não cantaria mais no Brasil e por que. Ele disse que em nenhum momento ele decidiu que não cantaria mais no Brasil, que ele continua fazendo música, mas, não comercialmente, e que ele não tem interesse em gravar comercialmente, esse não é o seu objetivo.


SR - Então, então nesse caso... Mas ele teria que ter um objetivo qualquer de fazer pelo menos algo para o sustento dele...


JV – Ele era fiscal da Sunab, se aposentou como fiscal da Sunab e deve ter a aposentadoria dele. Acredito que ele também receba direitos autorais.


SR – muito pouco se comparar com as minhas... é uma coisa muito... Bom, ele deve ser protegido de alguma forma ou de outra, deve ter alguma forma que faz com que ele tenha o do sustento pelo menos. Eu, nem isso tenho, mas, tenho que me virar... Agora eu acho uma pena que ele não esteja na parada. O que acontece é o seguinte, é que a gente tendo sido calado pela censura, proibidos de tocar no rádio, porque a nossa música foi proibida de tocar no rádio, tanto a minha com a dele... Jogaram pra cima da gente um destino muito trágico de um esquecimento.


JV – A revolta do Vandré é que ele acha que foi condenado pela própria sociedade.


SR – Não é bem isso, ele tá errado nisso, a sociedade reclama pela volta dele, mas é que a voz do povo não tem vez, quer dizer, você não ouve a voz do povo, você entrega pro provo a voz que ele tem que repetir. Então, e o povo, o nosso povo realmente ele é, ele é... a palavra certa.. é...submisso. Ele é submisso por natureza, e recebe as informações e as repete.


JV – Como verdade.


SR – Como verdade... Então ele passa a repetiu as verdades que lhe impõem a mídia, o sistema. Mas tem suas preferências. O povo gosta do Vandré, como gosta do meu trabalho, mas é difícil eles receberem porque eles não têm como receber esse trabalho, então eles consomem outras coisas. Eu acho que traído pela sociedade é um pouco exagerado da parte dele. Porque o que aconteceu é que a música brasileira vinha da Bossa Nova para a música de protesto como a gente chamava, como eles chamavam a música política, a música engajada, e depois partiu pra... Como foi proibida, surgiu a Tropicália. Mas os historiadores, os críticos e tal, eles pulam esse pedaço, eles saem da Bossa Nova para tropicália como movimento, mas na verdade o grande movimento foi o nosso, foi o verdadeiro movimento, porque era uma coisa que vinha de baixo pra cima. Isso é uma coisa ruim, entendeu? Porque a gente foi colocado à margem, não só pelo próprio sistema, que era o objetivo do sistema era nos colocar à margem, mas como a sociedade no sentido da crítica, no sentido do reconhecimento histórico, dessa coisa, não na memória do povo, porque o povo tem memória do nosso trabalho até hoje, inclusive. Eu saio nas ruas e as pessoas me conhecem ainda, o Vandré sai às ruas e todo mundo diz: lá vai o Vandré, poxa que bom se ele pudesse ter mais... Se o Vandré estivesse, eu não sei se ele está, mas eu estou ligado nas coisas do computador, por exemplo, e recebo e-mails...


JV – Ele não... Ele não quer saber.


SR – Ele não deve gostar disso. Pois é, eu recebo e-mails com uma reclamação incrível da minha ausência nessa história, e muita gente perguntando sobre o Vandré, mas, não há resposta pra isso. Mas a análise não é bem a do esquecimento da sociedade, não é bem isso. É o esquecimento dos manipuladores da informação. Isso que é a coisa, que um dia ou outro, já diz até o próprio Chico Buarque outro dia em minha casa... Sabe o seu trabalho... Se você disser o meu trabalho estará por extensão falando do trabalho Vandré, Théo de Barros... Esse trabalho um dia será desenterrada e será ouvido por todo mundo, porque tem valor, tem valor não só histórico, como arqueológico mesmo, de uma época, como é bonito, como não foi superado, tem várias coisas aí que ia ser consideráveis. São obras importantes, como se descobrissem de repente os clássicos entendeu? Porque são clássicas essas nossas músicas, então não há porque condenar a sociedade. É tudo filha.